As garrafas vazias sobre a mesa indicavam que eu realmente já havia ultrapassado o limite entre a lucidez e uma leve embriaguez. Tudo estava muito mais bonito e eu... extremamente alegre e solta. A cervejaria mantinha a qualidade nas bebidas e o velho amigo a indicar as melhores opções para cada gosto, porém o espaço em nada se parecia com o local tão conhecido por mim. Mesas na calçada, grandes portas abertas e, sem dúvida, o visual antigo me agradava mais. Nem mesmo meu velho cantinho das tardes fugidas do trabalho, sempre em boas companhias, estava lá. Mas a situação também era outra. A galera toda sentada nas três mesas unidas, muito barulho, aquela loucura em que todo mundo fala ao mesmo tempo sobre todo tipo de assunto. As imagens embaçadas em meus olhos, mas o som... cada ruído ainda está gravado na minha mente. Ah, e eu ria, gargalhava sem nem saber do que! Do meu lado esquerdo uma cadeira vazia, que durante todo aquele tempo eu não sabia o que fazia ali.
Garrafa também vazia, me levantei para buscar outra, um breve diálogo na escolha da próxima.
- Essa é ótima! É forte, consistente, amarga, do jeito que você gosta!
- Na verdade, não se espante, mas queria algo mais... suave!
- Hum... bem... essa de trigo é uma boa opção.
- Ok, então vamos à ela!
Garrafa na mão, eu voltava para a mesa e ainda mantinha aquele diálogo à distância até que... A cadeira vazia havia encontrado alguém para ocupá-la. O encosto muito bem preenchido por costas largas, meus olhos alcançaram aquele braço que repousava relaxado, pulso de ossos fortes (fetiche estranho o meu por pulsos “largos”). Mas o que realmente fez meu corpo dar sinais e vibrar foi a perna que descuidada se esticava até a minha cadeira... pele morena, provavelmente quente... pelos... Talvez por alguns segundos eu tenha me esquecido de respirar, e nesses mesmos segundos o efeito do álcool parecia nem existir, para que eu admirasse imóvel aquele homem, para que meus desejos mais secretos passassem incessantes pela minha mente... sua boca na minha, seus braços me envolvendo com força, seu corpo nu junto ao meu, suas mãos tocando cada pedaço de mim. Ele talvez não tenha me notado ali atrás, ou fingiu que não. Me aproximei e toquei sua perna para que devolvesse meu lugar e quem sabe meu juízo, levado pra bem longe naquele momento. Seus olhos se cruzaram com os meus e neles também faiscava o desejo. Minha cadeira estava novamente vazia e então me sentei... a garrafa esquecida em minha mão pousou sobre a mesa. Eu ainda estava mergulhada em seus olhos e ele nos meus. Não havia dúvidas de que ele mexia comigo, com meus pensamentos, com todo o meu corpo e que eu o desejava naquele instante enlouquecidamente.
Despertei um pouco daquele fascínio, mostrei empolgada a garrafa, gelada na medida ideal, enquanto eu fervia e ardia num calor que nada tinha de ideal. Ele permanecia com os olhos fixos em mim, um leve sorriso. Enchi seu copo e depois o meu, e quando me voltei para ele, sua mão segurou fortemente a minha, repentinamente, causando uma sensação deliciosa que percorreu todo o meu corpo. Eu não ouvia nada, ainda que todos permanecessem em suas conversas e risos, e eu também nada via além dele. Era como se estivéssemos em uma redoma de vidro, fora do mundo, envolvidos pelo desejo. A outra mão pousou leve em meus joelhos. Os copos esquecidos, e também os amigos... os problemas... a vida... Seu corpo cada vez mais próximo, o meu a ponto de entrar em um colapso, e eu sempre esquecendo a ação básica e vital de respirar! Seus olhos se aproximavam, sua boca, sua mão subindo até minha nuca, seus dedos passeando pelos meus cabelos. Finalmente eu teria seu gosto no meu e, quem sabe, mais que isso... Fechei meus olhos para me entregar àquele momento e... o vazio, o frio, o escuro!!! De olhos novamente abertos, tudo havia desaparecido... bebidas, amigos, alegria, mãos, boca, beijos... a realidade mostrava minha cama vazia, meu quarto de sempre e o relógio indicando que já passava da hora de me levantar. Um sonho... tudo não passara de um sonho! Mas... algo ainda permaneceu... meus olhos ainda ardiam e meu corpo ainda o desejava. Nada que um pouco de realidade conseguisse afastar... Será?
E quem nunca...???

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