quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Vinho e Fogo...

 

Os humanos às vezes são confusos, caóticos e improdutivos. Nos bons dias é divertido ver, outros desgastante. Mas se tem uma coisa que me faz ficar no meio deles... sorrio erguendo o copo do balcão quando a fêmea levanta a taça... são as mulheres. Tecnicamente não tô vestido para a ocasião, restaurante pequeno e bonito, fêmeas perfumadas aqui, mas é caminho e não está na hora de encontrar o primo, então entrei. Estou gostando, observando o salão de uma banqueta no bar, meu couro contrastando com os bem vestidos no lugar.

Eu havia aguardado a noite de sexta ansiosamente durante toda aquela semana. Finalmente meu noivado com William estava chegando ao fim para dar lugar a um casamento esperado por todos. Eu havia cuidado de cada detalhe para que fosse o momento perfeito e ficasse na lembrança de cada familiar e de cada convidado como um dia de muita alegria. Eu não conhecia o restaurante escolhido para esse belo momento, porém ao chegar notei que era um local muito clássico e aconchegante. William ainda não estava lá, como sempre o trabalho consumia muito de seu tempo e os imprevistos eram constantes. Atuava como cardiologista em um hospital que recebia a grande demanda da cidade. Moravam em uma cidade interiorana, mas que perto das demais da região, era considerada grande, tanto que estava surpresa por não conhecer aquele lugar que me parecia muito acolhedor. Tinha certeza que se tonaria um dos meus preferidos. Subi os três degraus da entrada para o salão e fui recebida por um simpático senhor que indicou uma mesa já reservada. Notei alguns olhares enquanto atravessava o corredor entre mesas e cadeiras que dariam a um cantinho bem reservado no amplo espaço. Eu não sou dessas mulheres que passam horas cuidando da beleza, meus cabelos longos e castanhos são como nasceram, os olhos também e por curtir o campo sem preocupações, o bronzeado está sempre em dia, sou discreta na maquiagem e detesto os batons. Na ocasião, estava com um de meus muitos vestidos básicos e preto. Um delicado decote em “v” que mostrava um pouco do colo e o ajuste perfeito para não grudar no corpo, mas também não deixar de mostrar algumas curvas delicadas. Sentei-me na mesa indicada e um dos atendentes questionou se gostaria de beber algo enquanto aguardava. Solicitei a carta de vinhos e pedi um tinto seco que me era conhecido. Logo a garrafa pousou em minha mesa e pintou de um rubi intenso a taça colocada à minha frente. O tempo passava e nada de William. Observando o pequeno e aconchegante espaço meus olhos param em um homem sentado próximo ao espaço do bar. Diria que é essencialmente misterioso. Também está com as roupas pretas, em couro, diferente da maioria dos homens vestidos com seus ternos sempre iguais. Noto que ele também observa as pessoas que ali estão e parece esperar por algo ou alguém. De repente nos encontramos em um olhar, que demora mais tempo do que deveria. Parece que o vinho já está fazendo efeito em meu corpo e sinto um calor tomar conta de tudo. Decido escapar uns minutinhos para um pequeno jardim que há em uma área aberta do restaurante, preciso respirar. Passo por ele, o mistério em pessoa, fico tentada em fazer algo mais do que apenas olhar, realmente seria melhor parar de beber, mas ainda assim levo a taça cheia para o jardim. A lua está plena no céu, o vento sopra suave e parece pouco para tirar o rubor que tomou conta de meu rosto. Um bip no celular chama minha atenção, é uma mensagem de William se desculpando pelo atraso e avisando que está em uma emergência, sem horário para sair. Ainda bem que a taça estava cheia pois preciso beber pra acalmar a frustração. Ouço passos e parece que mais alguém descobriu aquele cantinho afastado dos ruídos do salão.

Distraída. A fêmea não nota o olhar dos machos ou a inveja de algumas mulheres. Respiro fundo quando passa, fresco, limpo, campo. A pele limpa e uma boca desenhada, marcas de riso, mas no momento tensa. Por um instante ela para e encaro descaradamente esperando, mas ela segue. A barwoman se aproxima e aponta meu copo, sorrio e ela preenche mais uma dose. As coisas aqui são caras, do aperitivo ao vinho por taça. O relógio diz que a noite mal começou. Um garçom passa e deixa uma garrafa descansando na parte de dentro do balcão, eu gosto de sentar perto da área de circulação, noto que é o mesmo vinho que a mulher tomava. Viro minha dose de herradura supreme (valeu fela do qhuinn pelo bom gosto) espero um momento de distração da equipe e saio com a garrafa. É fácil seguir o cheiro limpo da fêmea, meio escondida no jardim, está frio esses dias então os humanos não jantam aqui. Mas ela, exposta na brisa, encara o celular descontente "Más notícias, bela?"

Os passos param bem próximos de mim - "Más notícias, bela?" – uma voz rouca quebra o silêncio e também o meu momento de frustração. Meu corpo sobressalta, o calor aumenta e as palavras custam sair de minha garganta seca, ainda que a taça de vinho já esteja quase no fim. - Parece que a noite não vai ser bem como o programado, mas digamos que eu já esteja acostumada com a mudança de planos... Sinto raiva e bebo o último gole de vinho. Percebo a grosseria e tento ser gentil: - Tem mais vinho na mesa, se importa se eu for buscar? Aceita uma taça? Dou alguns passos para buscar a garrafa mas ele segura meu braço. Sua mão fria entra em choque com minha pele quente pelo vinho e por toda aquela situação. - Não é preciso. Então, tão misteriosamente como ele mesmo é, me mostra a garrafa em suas mãos. Pega um objeto que não sei bem o que é, mas que em nada se parece com um abridor de vinhos, talvez alguma faca ou algo do tipo e tira a rolha facilmente, enchendo novamente a minha taça. Bebo com vontade, apesar de saber que não deveria pois parece que meu corpo e meus pensamentos já nãos estão mais sob controle.

- Então agora tens novos planos para a noite?

- Acredito que não há mais planos, só deixar a noite passar. E você? Esperando por alguém?

- Não aqui, esse foi só um desvio do caminho até chegar a hora “do trabalho” e quem sabe da diversão.

- Diversão... faz tempo que tenho vontade de realmente me divertir. A vida adulta é um tédio!

Ele chega mais perto, talvez perto demais considerando todo o calor que toma conta de mim desde que meus olhos cruzaram com os dele, bebe da garrafa apesar de parecer não gostar, e sussurra num tom descaradamente provocante:

- Quem sabe não podemos ter alguns minutos de diversão aqui...

Acho que a fêmea não percebe sua própria intensidade, por baixo do exterior até doce, ela ferve e sinceramente não é da minha conta o que ou quem a irritou, perda deles. Só que essa veia dela me atrai, imagino a calma ruindo e essa delícia explodindo, quem sabe mostrando alguns dentes... Encho sua taça uma última vez, o cheiro de mulher misturado com vinho. Vinho no fim, bom vinho, mas seria melhor provar a safra da boca dela. Baixo o gargalo da boca e corto a distância, ela ergue os olhos para compensar a diferença de altura "o momento é seu, fêmea, basta querer" deixo a garrafa cair para a grama e busco sua boca com certa calma, deixando decidir se vai ferver comigo.

Ele parece pensar em algo por alguns instantes, então chega ainda mais perto, a garrafa escorrega de suas mãos e descansa na grama fresca do orvalho da noite. Ele sabe o quanto é atraente e sabe que é culpado pelo rubor que toma conta da minha pele. Meus olhos param nos dele mais uma vez, quero beijá-lo!!! Não sei como posso pensar em algo assim, mas é o que mais desejo naquele momento. Percebendo minha vontade, ele cola sua boca na minha com calma, num beijo que não combina muito com seu jeito selvagem, mas sei que deve ser em razão da falsa delicadeza que aparento ter. Mostro que não é assim que quero e colo ainda mais meus lábios nos dele, com pressão, com vontade, com sede do seu gosto e o beijo se arrasta por minutos. Então ele para e puxa-me para ainda mais perto e, antes que eu tivesse tempo de recuperar o fôlego, nossos lábios estão novamente unidos. Uma voz em minha cabeça me ordena a parar, mas é rapidamente abafada pelo cheiro da pele dele e pelo seu toque forte segurando primeiro meus braços e depois descendo até minha cintura e minhas costas. É bom beber o gosto do vinho da boca dele e eu não sinto vontade de parar. Minha mão entra pela jaqueta de couro e agarra a camiseta preta por baixo dela. De repente me lembro de que estamos em um local público e que eu estou nas pontas dos pés, beijando despudoradamente alguém que eu nem sei quem é, nem mesmo o nome! Volto o salto dos sapatos ao chão e o rosto dele desce ao mesmo tempo, sem se afastar, mas logo percebe o meu incômodo e também se afasta um pouco. Olho para dentro do restaurante preocupada mas parece que as pessoas nem mesmo notaram que estamos ali, um pouco pelo vidro escuro que separa os dois ambientes, permitindo a visão apenas pela porta de acesso. Pego a taça da mesa e bebo mais um pouco, ele a toma de minha mão e faz o mesmo. Depois disso vai até o bar, diz algo com uma das atendentes, vejo o quanto a moça se derrete por ele e tenho vontade de pegar a garrafa da grama e acertá-la para que seja mais discreta! Ele volta e fecha a pequena porta com cuidado para não chamar a atenção de ninguém.

- Agora podemos continuar sem interrupções!

- E aonde mesmo que paramos?

Ele se aproxima rapidamente, me afasto um pouco e sou barrada pela mesa que estava logo atrás.

- Encurralada, não é?

Novamente seu beijo me derrete ao mesmo tempo em que agita todo o meu corpo. Seus lábios preenchem toda minha boca e nossas línguas dançam insaciáveis pedindo por mais. Ele acaricia meu pescoço com os lábios e ouço um gemido rouco escapar de sua garganta. Eu queria mais e sabia que ele também. Ele aumenta a pressão entre nós, já estou praticamente sentada sobre a mesa. Minhas mãos agarram sua pele por debaixo da roupa e ele empurra a saia do meu vestido, roçando minha coxa e me trazendo arrepios. Meu coração está tão acelerado que consigo ouvi-lo bater.

Tem garras por baixo do exterior doce, começo o beijo devagar sentindo a vontade e o gosto da fêmea, ela responde tão gostoso, é passional e queima. Provo vinho na sua língua, o corpo macio colado no meu dando vontade de tirá-la do chão e ter um mau caminho completo. Quase rosno quando se afasta. Olha em volta ruborizando como que procurando alguém, estamos a sós, ambiente público, mas sós. Respiro fundo, controlando a fome, mesma fome presente nos olhos dela. Penso rápido e sigo até o bar anunciando uma pequena... reunião... à atendente sorridente do outro lado, volto e fecho a porta. O ar carregado de tensão, expectativa. O beijo volta mais tórrido, suas mãos na minha pele dando um arrepio gostoso. Curvo os dedos na barra do vestido preto e subo, pele quente, as coxas macias, a fêmea recostada na mesa. Desço os lábios por seu pescoço e mordisco conforme reage afastando, não deixo que escape, tomo sua boca encontrando sua língua com a minha. Ergo seu corpo na mesa, as pernas abertas, fico encaixado entre elas e nos encaramos. Me ergo sobre ela, não desviando os olhos enquanto deliberadamente tiro a jaqueta e a camiseta. A fêmea ergue as mãos espalmadas no meu peito e usa as unhas.

Não sou mais capaz de usar a razão, ele facilmente ergue meu corpo sobre a mesa e se encaixa entre minhas pernas enquanto tira a jaqueta e a camiseta me fazendo perder o ar. Eu quero devorar cada pedaço daquele homem, eu preciso que ele tome conta de todo meu corpo com urgência! Minhas unhas escorregam por seu peito definido e param no botão da calça... eu preciso!!! Ele puxa as alças do meu vestido e sua língua desce pelo meu pescoço até rodopiar vagarosamente em cada um dos meus seios, me arrancando suspiros sem fim. Sua boca baila com maestria desvendando cada pedaço de mim e causando choques de puro prazer. Para um momento e põe seus olhos nos meus que sinto queimarem de desejo. Busco sua boca novamente, mordisco seus lábios com cuidado, mas tenho vontade de morder com força e arrancar pedaços dele para mim. Volto meu corpo ao chão e o faço entender que chegou a minha vez e então agora é ele quem se vê encurralado. Continuo o trabalho que comecei com os botões, desço seu zíper enquanto salivo de vontade de sentir seu gosto. Não há nada além da calça então tudo fica mais fácil. Minha boca começa pelo início do caminho que leva até onde quero chegar. Desço entre lambidas e logo todo seu gosto toma conta de mim. O corpo dele também vibra de prazer, em especial aquela parte que agora tomava conta da minha boca. Ofereço o melhor de mim e o devoro com vontade. Estou muito bem apoiada no chão, mas me sinto à beira de um abismo e noto que ele está prestes a se jogar junto comigo. Vejo sua luta para não perder o controle, mas os lábios presos nos dentes, o tremor de seu corpo e os sons roucos sufocados em sua garganta me mostram que ele está perdendo e não demora muito para chegar ao limite enquanto o tenho todo em minha boca e posso tomar para mim cada gota do seu prazer. Sem perder tempo, ele me pega com facilidade e me devolve para a mesa, me beija e bebe dos meus lábios que ainda carregam o gosto dele. Seus dedos arrancam minha calcinha por debaixo do vestido como se fossem do tecido mais frágil.

- Agora é minha vez de experimentar de você – sussurra em meu ouvido e me traz calafrios dos pés à cabeça.

Então ele abre minhas pernas e começa sua brincadeira encontrando meu desejo embebido pela vontade de tê-lo em mim. Sua língua sabe muito bem o que fazer e meu corpo fala por si ao estremecer com as mãos apoiadas na mesa para não sucumbir ao terremoto que toma conta de mim. Ele se levanta, ainda mais imponente, ainda mais belo e eu o quero todo ali dentro e ele perece ouvir o que meu desejo fala.

- Agora, bela, eu vou me enfiar todo em você até satisfazê-la completamente.

Dizendo isso, guia seu pulsante desejo para dentro de mim, escorregando com facilidade, aos poucos, numa tortura sem fim. Quando penso que vamos começar, ele se retira e faz tudo novamente, indo e voltando, deixando claro que comanda todo aquele momento. Enfim, com força, se coloca todo em mim e minhas mãos se cravam em suas costas enquanto tento respirar. Com o ritmo perfeito, seu ir e vir é enlouquecedor e é tudo o que eu precisava. Uma de suas mãos passeia por minhas pernas e a outra segura meus cabelos enquanto sua boca continua a saborear meu pescoço. Como é bom senti-lo me preenchendo tão perfeitamente. Ele pega minhas pernas e as coloca sobre seus ombros, deixando o caminho ainda mais livre para que possa se cravar todo em mim. O vento sopra, as árvores se balançam na rua e apesar da brisa fria gotas se suor banham meu corpo. O seu roçar alcança o ponto certo, começo a sentir leves explosões e sei que um vulcão deve logo lançar suas chamas. Ele aumenta a velocidade, minhas mãos o seguram com ainda mais força, minha respiração para por um breve momento e então, juntos, explodimos de prazer, esvaziando nossos corpos de todo o desejo, de todo o prazer. Ficamos ainda ali, unidos, ele ainda dentro de mim, os tremores dando lugar a uma paz límpida. Um beijo quente une nossos lábios e nossas línguas, em um gosto misturado de nós dois. Miro seus olhos, ele lança um sorriso malicioso e triunfante. Levanto as alças do meu vestido enquanto ele abotoa a calça. Olha para o relógio e parece de lembrar de algo.

Tórrido e sensual, a fêmea é deliciosa. Meu corpo ainda pulsa pelo seu toque e vê-la arrumar a roupa faz elevar a vontade de arrancar de novo, penso, ainda sinto seu sabor na língua. Como se cronometrado, meu celular vibra, meio esquecido na jaqueta no chão. Droga. Como esperado é meu primo, não atendo mas sei que tenho que ir. A fêmea me observa com atenção tranquila, nenhum de nós espera mais do que esse encontro foi, mas é uma pena não ter mais tempo. Me aproximo e sem dizer nada a beijo uma última vez, ela é como fogo, a encaro "gostosa demais p ficar esperando por aí fêmea, lembra disso" pisco e desço para o jardim. Não tem saída para a rua aqui, mas só preciso ir ao canto da casa e desmaterializo em direção ao centro e ao primo. Sorrio, seja quem for que deixou a fêmea plantada hoje, perdeu, azar de uns é minha sorte.

Ele acaba de se vestir e eu tento fazer o meu vestido voltar ao seu devido lugar, sem a pobre calcinha rasgada ao chão. Me olha e me faz querer tudo novamente, mas sei que precisamos ir. Ele me beija ainda uma última vez... como seus lábios tão suculentos e viciantes! Diz algumas palavras e se afasta. A lua brilha no couro da sua jaqueta, negra como aquela noite. Se vai sem um nome e é exatamente assim que deve ser, sabemos que foi um momento de pura luxúria e prazer, mas foi apenas um momento, um encontro, uma noite incrível, mas só uma noite! Sigo para o salão do restaurante com um sorriso bobo nos lábios e algumas dúvidas sobre o futuro. Que belo acaso!!!

 

Texto escrito em parceria com o personagem Balthazar do grupo Lhenihan – BDB – baseado na série de livros “Irmandade da Adaga Negra”.

domingo, 31 de maio de 2015

A fênix

Kendra estava apoiada na janela de seu quarto observando o céu acinzentado daquele fim de tarde de domingo. Passara o dia trancada em seu mundo, havia terminado de ler o terceiro livro do fim de semana e cada um deles lhe fizera chorar incontrolavelmente, questionando tantas coisas sobre sua vida. Precisou de ar e por isso estava ali, o vento soprava frio e, de olhos fechados, sentia aquele vazio lhe consumindo.
Já estava cansada de quem se tornara. Era apenas um corpo que seguia os comandos daquela rotina, sua alma há tanto havia lhe fugido e levado a vida que corria por suas veias. Precisava fazer algo e salvar a si mesma... precisava voltar ao ponto em que se perdera, mas não fazia ideia de como agir. Não tinha forças para sair de onde estava, não encontrava coragem para buscar mudanças, e talvez nem quisesse. Se afundava a cada dia mais em seu abismo de escuridão e sinceramente não via a mínima faísca de luz. Mais lágrimas saltaram de seus olhos, o corpo todo lhe doía e a cabeça parecia que iria se estilhaçar em mil pedaços. Não queria suportar mais aquela noite de domingo, sentir mais uma semana se aproximando, então pegou o comprimido na gaveta do criado e o engoliu sem medo. Em alguns minutos já estava em um sono profundo, sem sonhos, vazio como sua vida.
Acordou bem antes do que poderia, com a mesma sensação de ter sido massacrada. Ainda que sem vontade, tomou um banho, engoliu um café e se arrumou para o trabalho. Faltava muito para iniciar aquela loucura que era seu dia, mas não queria ficar em casa, se sentia sufocada. Entrou no carro e simplesmente dirigiu. Parou em uma pequena praça, com árvores e alguns bancos. Sentou-se ali, olhando para o nada e pensando no quanto sua vida estava toda errada. Havia feito o melhor sempre, tentando agradar a todos, ser a “correta”, mas havia ganhado em troca uma grande rasteira do destino e ainda estava estendida no chão. Observou os carros, as casas, o comércio, e então seus olhos se fixaram em um ponto, o muro com a imagem de dois dragões entre chamas e as letras em um preto impactante que informavam que ali funcionava um studio de tatuagens.
Kendra adorava tatuagens, tinha vários desenhos guardados na intenção de que um dia se transformariam em uma, mas não sabia porquê nunca tinham ido do papel para sua pele. Levantou-se e caminhou decidida até o outro lado da rua. Entrou e uma jovem de cabelos roxos, piercings e o corpo coberto por tatuagens lhe atendeu.
- Quero fazer uma tatuagem.
- Ótimo querida! Onde e o que será?
Ela parou respirando com ar de decepção. “O que seria? E... onde?”
A jovem percebendo o impulso daquela mulher e as dúvidas que tinha agora, lhe indicou uma cadeira e várias pastas com modelos de tatuagens que talvez pudessem ajudá-la. Ela então se jogou naquele mundo... flores, borboletas, estrelas... nada disso lhe chamava a atenção, fadas, bruxas, gnomos, índios... lindas tatuagens estilo tribal e maori, que também não eram o que queria. Notou nesse momento o som que vinha de uma porta fechada e que indicava que alguém trabalhava na tatuagem de um cliente. Pegou uma terceira pasta com carpas, dragões e então... virando mais uma das páginas seus olhos brilharam. Encontrara exatamente o que queria naquele momento... uma fênix com asas abertas em pleno voo, sem cores, apenas a tinta preta, era isso! Olhou para a jovem que lhe atendera e deu-lhe um sorriso.
- Encontro?
- Sim!
Kendra levantou-se e foi até ela com a imagem escolhida.
- Essa fênix, nas costas, lado esquerdo.
- Boa escolha querida. Pra quando vamos marcar?
- Pra agora!
A jovem riu e Kendra ficou sem entender.
- Acontece que hoje temos apenas o Stefano trabalhando. Ele está há duas horas numa tatuagem que ainda deve levar mais tempo, e acredito que depois precise de uma pausa para comer algo e descansar.
- Por favor, eu preciso que seja agora! Eu espero e não é algo tão demorado, é só uma fênix...
A atendente de cabelo roxo riu mais.
- Ok, é só uma fênix! – disse em tom de brincadeira e censura. – Aguarde um instante que vou falar com o Stefano e tentar colocar essa fênix em você ainda hoje.
Kendra bateu umas palminhas e soltou uns gritinhos infantis que fizeram a jovem gargalhar. Logo ela voltou dizendo:
- Fica me devendo essa! É só aguardar.
Não demorou muito para que a porta se abrisse e um homem de uns trinta e poucos anos saísse com o braço direito envolto em plástico e totalmente coberto por uma linda tribal. Despediu-se da jovem e saiu. Kendra ouviu seu nome e viu sua salvadora lhe aguardando para levá-la até a sala, em um anexo. Levantou-se animada, atravessou a porta que logo se fechou atrás dela. Ficou admirando todos aqueles desenhos pelas paredes. O ambiente cheirava a álcool e uma música da banda Bad Religion tomava conta de tudo. Então ele apareceu. Stefano caminhava secando as mãos distraidamente. Estava com uma bermuda jeans, all star preto e uma camiseta também preta com os mesmos dragões pintados no muro. Tinha os cabelos raspados na lateral e curtos e espetados mais acima da cabeça, numa bagunça organizada. Braços e pernas cobertos por tatuagens incríveis e também pedaços de mais algumas que subiam por seu pescoço. Terminou sua contemplação ao ser chamada por ele.
- Então, o que será?
Kendra lhe entregou a imagem da fênix e sussurrou timidamente:
- Nas costas...
- Ok, vamos lá, pode se sentar...
Ela obedeceu enquanto Stefano preparava todo o material. Observou que também havia tatuado o rosto. Com tudo preparado ele a olhou, e Kendra pode notar seus olhos incríveis entre um verde e cinza fosco que lhe fizeram ter vontade de mergulhar naquela profundidade misteriosa.
- Você pode tirar a blusa e se deitar de bruços.
Stefano não pedia, sua voz seca ordenava e ela sentia prazer em obedecer. Então se livrou da blusa, permanecendo apenas com o sutiã preto que agradeceu por ser ao mesmo tempo comportado, mas com um pouco de sensualidade. Só então se deu conta daquela loucura. Mal entrou naquela sala, aquele homem nem mesmo sabia seu nome e ela se sentia completamente atraída por ele. O que estava acontecendo? Nos últimos dias nada lhe despertava interesse. Recebia convites, ouvia as mesmas cantadas idiotas de sempre e nem se dava ao trabalho de responder. Ignorava que era desejada.
Stefano pediu que Kendra indicasse o local exato, ao que ela fez. Sentiu o borrifado gelado do antisséptico e o toque da gaze secando sua pele. Não conseguiu controlar um arrepio que tomou conta de todo seu corpo. Em contraponto, logo recebeu as mãos quentes de Stefano, ainda que estivesse de luvas, o braço se apoiando em suas costas e o ruído indicando que iria começar.
- Qualquer problema avise, ok Kendra?
Ele sabia seu nome, com certeza a jovem atendente lhe informara. Respondeu a pergunta com um resmungo e fechou os olhos para esperar a dor, mas não a sentiu, não da maneira como imaginou, apenas um leve ardor.
Stefano se revezava entre pigmentar a pele, limpar o excesso de tinta com sangue e observar o resultado.
- E então, há algum motivo para escolher uma fênix?
- Bom... sempre quis fazer uma tatuagem, na verdade várias. Guardei alguns desenhos para isso mas a vida passou e eles só ficaram no papel. Estava sentada num banco logo ali na pracinha, vi o studio e decidi que hoje seria o dia. Só depois que entrei é que descobri que não sabia o que fazer...
- Tatuagens sempre são impetuosas! Indicam coragem e vontade de mudar algo. Na verdade, muitas vezes são o início da mudança...
Kendra suspirou... era exatamente aquilo!
- ... e então olhei todas aquelas pastas com tantas imagens, até chegar nessa e ter a certeza de que é ela!
- Isso não respondeu a minha pergunta. Escolheu a fênix apenas por achar bonito?
- Não... eu não me marcaria com algo só porque é bonito. Sei que a fênix representa renovação, a ave que ressurge das próprias cinzas depois de ser consumida pelo fogo. É o que espero que eu consiga. Estou em cinzas e preciso ressurgir.
- Trabalha?
As perguntas de Stefano incomodavam Kendra, eram diretas e parece que ele criava aquela conversa por obrigação.
- Sim. Trabalho na edição de um jornal da cidade.
- Casada?
- Não.
- Nunca?
- Não.
- E o que fez uma bela mulher como você queimar até se tornar cinza?
Kendra engoliu um nó que se formou em sua garganta. O passado todo lhe voltando ali, como num filme. Cada escolha errada e as consequências que hoje lhe pesavam e faziam a vida tão difícil de ser carregada.
- Digamos que eram muitos caminhos e eu escolhi apenas os errados e que não dariam em lugar nenhum.
- Impossível.
- O que é impossível?
- Toda caminhada vale algo e nos enriquece de alguma forma, mesmo as que nos fazem sofrer.
Nesse momento um punk metal se misturou ao Bad Religion que ainda ecoava pela sala. Stefano parou por um segundo, mas ignorou e voltou ao trabalho. A música, porém, insistiu mais uma vez sem novamente receber atenção. Alguns segundos depois alguém bateu à porta e Kendra ouviu a voz da jovem de maneira séria:
- Stefano, é seu irmão no telefone. Disse que está tentando falar com você pelo celular mas você não atente, e que é urgente.
Ele soltou um palavrão, limpou o excesso de tinta das costas de Kendra e com a mão pousada ali, se desculpou e disse que já voltava. Fechou a porta, deixando-a com seus pensamentos. Stefano não voltava e então ela se preocupou com o horário do trabalho. Decidiu se levantar e checar o celular. Desceu da maca com cuidado, abriu a bolsa e conferiu a tela do celular notando que ainda tinha praticamente duas horas. Sentou-se e, antes de voltar para a posição em que estava, Stefano entrou. A porta bateu escapando das mãos dele e seus olhos não puderam se desviar dos belos seios de Kendra naquele sutiã preto. Era realmente uma bela mulher. Os cabelos no meio das costas em camadas de diferentes tons de loiro. Era baixa, mas Stefano também não era muito alto, e o corpo dela era totalmente proporcional. Era magra mas não em excesso. Os seios de uma pele branca e que parecia tão macia, a cintura que ressaltava um pouco os quadris. Kendra notou o olhar de Stefano e um calor tomou conta de seu corpo, algo que não sentia há muito tempo. Um tremor e um desejo incontrolável de tocá-lo tomou conta dela. Stefano passou a mão pela cabeça como que querendo espantar seus pensamentos, caminhou de volta para onde deveria estar, sentou-se da mesma maneira, tão próximo dela que podiam sentir o calor e a respiração um do outro.
- Podemos continuar?
Nesse momento Bad Religion deu lugar para algo mais suave e envolvente.
- Nunca ouvi essa música, eu acho, é muito bonita.
- Heartless Bastards não é uma banda muito conhecida. Kendra, você pode se deitar e...
Nesse momento ela colocou uma das mãos sobre a perna de Stefano que estava bem ali, colada na maca, olhou em seus olhos e num impulso se jogou sobre ele num beijo arrebatador. Ele, assustado de início, sem saber o que fazer não foi capaz de resistir e também mergulhou naquela boca macia. Suas línguas se entrelaçavam e os lábios se comprimiam num desejo quase palpável. Praticamente se esquecendo da tatuagem, Kendra se deitou na maca, puxando Stefano pela camiseta sobre ela. Desabotoou a bermuda, desceu o zíper e sem tempo a perder o tocou ali dentro. Ouviu os gemidos dele em seus ouvidos e a respiração ofegante. Stefano livrou os pés do tênis, enquanto a beijava e ela lhe tocava deixando-o louco. A outra mão de Kendra percorria-lhe as costas, cravando sua pele nos momentos em que aquele interminável beijo se tornava mais intenso. Por fim, tirou-lhe a camiseta e perdeu alguns segundos observando as tatuagens no peito definido de Stefano, percorrendo seus dedos por ali com os olhos em chamas e o restante do corpo também. Nenhum dos dois se atrevia a dizer qualquer palavra e nem mesmo pensar no que estava prestes a acontecer. Naquele momento eram apenas corpos e desejos. Ele tirou a calça jeans de Kendra e a própria bermuda, encontrando a calcinha preta que fazia par com o sutiã. Beijou-lhe o pescoço e ela ondulou sobre a maca enquanto ele continuava deslizando os lábios até chegar em seus seios. Abriu o fecho frontal e lhe engoliu um deles imediatamente, como se tivesse fome dela. A boca de Stefano chupava a ponta daqueles seios rosados e Kendra tentava respirar sentindo a língua quente dele e as leves mordidas que a faziam estremecer. Ele desceu ainda mais, beijando aquela barriga lisa e abaixando com os dentes um dos lados da calcinha dela, que logo também estava no chão.
Então, a boca de Stefano encontrou aquele pedacinho dela que pulsava de desejo e lhe arrancou gemidos de prazer. Ele era realmente bom naquilo, a língua em movimentos circulares e depois lhe invadindo, quente, molhada, da mesma forma que Kendra também já estava.
Ela não queria esperar mais, precisava daquele homem dentro dela, e então puxou-o pelos braços, que se aproximou novamente beijando-a no pescoço e causando-lhe arrepios. Sem qualquer pudor, ela o encaminhou para onde deveria estar, tinha-o nas mãos e logo o teria ali dentro. Stefano deslizou facilmente entre aquela umidade fervente de Kendra e os dois precisaram de um segundo para absorver toda aquela eletricidade. Ela começou a se remexer debaixo dele, uma das mãos percorrendo aquela coxa forte envolta em pelos negros e macios, enquanto a outra afundava em um de seus braços. Stefano, sobre ela, afastou um pouco os quadris e voltou afundando-se nela novamente, de início devagar e para ela num quase sofrimento, para logo se tornar mais rápido e muito, muito profundo. Seus corpos se chocavam com força, nada além do prazer importava naquele momento. Kendra laçou as pernas em Stefano aumentando ainda mais o contato entre eles e a profundidade com que ele lhe preenchia. Em poucos instantes seus corpos davam sinal de que uma explosão aconteceria. As mãos dela apertavam ainda mais os braços dele, e um gemido mais alto lhe escapou enquanto ele a penetrava mais uma... duas... e uma enlouquecedora terceira vez, que derramou aquele desejo para fora de seu corpo e para dentro do dela. Ele desabou sobre Kendra, a cabeça apoiada no vão daquele pescoço que inebriava agora um delicioso perfume de sexo misturado a alguma outra fragrância. Ela, ainda trêmula, sentia os últimos espasmos dele ali, dentro de seu corpo. Queria rir... não apenas aquele sorriso de satisfação que já tinha no rosto, e sim um riso livre, alto, de alívio, mas guardou aquela vontade e simplesmente suspirou.
Stefano se levantou um pouco, acariciou-lhe novamente os seios, os olhos agora mais cinza do que verdes. Então se retirou de dentro dela, pegou as roupas pelo chão e foi para o mesmo lugar de onde surgira enquanto Kendra o aguardava quando chegara. Voltou logo depois, já vestido.
- Tem um banheiro aqui, se desejar...
- Claro!
Kendra fez o mesmo, recolheu suas roupas e enquanto se vestia lembrou-se da tatuagem. Tentou vê-la no pequeno espelho e notou que estava vermelha e quase pronta. Voltou para a sala, vestida, apenas sem a blusa  para que Stefano terminasse o seu trabalho.
- Respondendo à sua pergunta... agora podemos continuar! – ela disse enquanto se deitava. Ele riu, colocou as luvas e era novamente “o tatuador”.
Apesar de ter pensado que estava terminando, levou um tempo até que Stefano pousasse aquela máquina na mesinha com as tintas e todas as outras coisas e num suspiro dissesse o “pronto” naquela voz pós sexo. Kendra imediatamente sentiu falta do seu toque. Ele ainda espalhou a pomada e cobriu o local com um plástico. Ela sentou-se enquanto ele organizava as coisas e dava algumas orientações de como cuidar da tatuagem. Ainda havia desejo nela...
- Posso usar o banheiro?
- Claro, só um instante...
Ele foi até lá e voltou em seguida.
- Pronto.
Kendra percebeu que o espelho não estava lá e ela queria muito ver o resultado da sua fênix, porém não era por isso que tinha ido até ali. Livrou-se das roupas novamente e saiu. Stefano estava sentado, de costas para ela, ainda organizando e limpando tudo por ali. Ela se aproximou, passou ao lado dele que só então levantou os olhos para mais uma vez se assustar com  a atitude daquela mulher que para ele ainda era muito mais fogo do que cinzas. Sem que ele tivesse tempo para qualquer reação, ela ficou de joelhos, mais uma vez abriu-lhe a bermuda notando que também havia mais desejo em Stefano, ao qual ela fez questão de abocanhar sem hesitar. Ainda tinha o gosto do sexo que haviam feito há pouco e ela saboreou com prazer. Sabia que sua boca trabalhava bem... sabia como deixá-lo à beira do abismo e já era exatamente onde Stefano estava com a sensação daquela boca quente a macia de Kendra a lhe envolver, sua língua bailando, os dentes roçando com cuidado e o ruído de cada sucção, dela o engolindo inúmeras vezes. Então foi a vez dele mostrar que queria mais levantando-a pelos braços e vendo-a sentar-se  deliciosamente sobre ele, as mãos apoiadas naqueles ombros cheios de cores. Ela se afastou um pouco para que ele pudesse encontrar o lugar certo e então, mais uma vez deslizar por aquele caminho que ela lhe oferecia. As mãos também tatuadas de Stefano seguraram com força os quadris de Kendra, acompanhando o corpo dela que subia e descia, acolhendo-o num encaixe perfeito.
Ela cavalgou Stefano com energia, os seios enrijecidos de prazer balançando sensualmente e algumas vezes indo parar na boca dele.
- Você é incrível Stefano...
- Você também é Kendra... é chama e não cinzas.
Foi bom ouvir aquilo, ela se sentia mulher como há tanto não se sentia. Cavalgou Stefano rebolando sobre seu corpo, fazendo-o bailar dentro dela até que ele puxou seus quadris uma última vez antes de novamente se estilhaçar dentro dela, os pelos do peito brilhando de suor, cada músculo contraído voltando a relaxar. Ela olhou no fundo dos olhos fascinantes de Stefano.
- Você é um cara incrível! Obrigada...
E enquanto se levantava pediu para ver o resultado da tatuagem.
- É uma surpresa e você não irá ver agora para não estragar tudo.
- Tudo?
- É... sem mais perguntas!
Curiosa, Kendra foi até o banheiro se vestir com as roupas que deixara lá. Pegou a bolsa, agradeceu novamente a Stefano, que a acolheu em um abraço apertado de despedida. Ela saiu e fechou a porta, parando ali em sua amiga de cabelos roxos para pagar pelo trabalho que ainda não vira. Agradeceu também à ela e seguiu para a pracinha onde tivera aquela ideia maluca e que não poderia ter sido melhor. Entrou no carro, o sol parecia ter novamente brilho e calor, o céu era azul e a vida parecia querer pulsar novamente dentro dela. Sem aguentar a curiosidade, pegou um espelho no porta objetos do carro, levantou a blusa sem se importar alguém lá fora pudesse vê-la, e então encontrou sua surpresa. Debaixo de uma das asas da fênix havia uma frase, que ela leu com os olhos marejados “É preciso se perder para se encontrar”. Olhou novamente para o studio, os dragões, as chamas... respirou profundamente e sorriu.
- Obrigada, Stefano...
Ele havia lhe devolvido algo precioso e há tanto perdido. Era uma mulher novamente, corpo e alma... ele resgatara e lhe entregara a alma deixada pelo caminho. Era o começo, um novo começo...


domingo, 19 de outubro de 2014

Flamboyant

Apesar de ainda não ter o manto da noite cobrindo o céu, a tempestade que se anunciava escurecera por completo a tarde. Rayana saíra uma hora mais cedo do que normalmente costumava deixar o suntuoso prédio onde gerenciava um dos setores de uma grande empresa de marketing.
Podia-se notar a tensão em seu rosto e em seus passos que tentavam parecer firmes, mas oscilavam sob os saltos do sapato preto. Pegou o carro no subsolo do prédio e saiu pelas ruas. Odiava se atrasar e contava com apenas quinze minutos para atravessar toda a cidade e chegar até o local combinado. Adorava aquele parque, as árvores imponentes, flores por todos os lados , os pássaros trazendo uma doce alegria. Ficou surpresa quando Hadrian sugeriu que se encontrassem lá, não imaginava que ele se lembrasse daquele lugar após tanto tempo longe. Esperava algo mais prático, discreto, estava tão acostumada com seus encontros furtivos, sempre com o mesmo objetivo: sexo casual, nada de cobrança, de ligações mais profundas, de dia seguinte, de expectativas, apenas o prazer físico. E então, sentia-se perdida com aquele toque romântico e tão puro quanto fora quando se conheceram há tantos anos.
Hadrian sempre lhe despertara um lado bom, calmo, ainda se lembrava muito bem da sensação de proteção que tinha nos momentos em que estavam juntos, e lhe doía notar que nunca mais se sentira segura com outro alguém.
As lembranças tumultuavam os pensamentos de Rayana enquanto ela tentava se concentrar no trânsito. Não conseguia deixar de imaginar o que poderia acontecer quando se encontrassem. Tinha medo... um medo terrível de que aquele amor voltasse tão forte quanto antes, não seria capaz de conviver com mais isso, não sabia porque aceitara aquele risco, ou talvez não quisesse admitir a louca vontade que sentia de abraçá-lo mais uma vez. As nuvens no céu se agitavam da mesma forma que seu coração, as batidas como os estrondos dos trovões.
Enfim chegou. Devido ao mau tempo, não havia outras pessoas ali. Desceu do carro, caminhou um pouco e logo observou alguém sentado em um dos bancos, debaixo de um frondoso flamboyant, só podia ser ele! Pegou o celular na bolsa, procurou por um número em seus registros e ligou enquanto seus olhos permaneciam fixos naquele que provavelmente fora seu grande amor. Viu ele tirar o aparelho do bolso e observar a tela, imediatamente se virou para procurá-la. Sim, era ele! Levantou-se rapidamente, caminhando ao encontro dela. Os sentimentos mais diversos perpassavam a alma de Rayana, uma emoção tão forte querendo aflorar enquanto ela lutava para controlar-se.
- Nossa... oi! Quanto tempo... você está ainda mais linda!
- Foi por isso que me apaixonei por você, um galanteador nato! Me dá um abraço?
Ela não acreditava que havia dito aquilo, e ainda pedido um abraço! Mas precisava sentir seu toque, seu calor, sentir que estavam ali... e juntos. E então, com um sorriso tímido, ele a abraçou. Naquele momento, tudo o que Rayana lutara para conter, tornara-se totalmente incontrolável. Ele estava ali tantos anos depois, tantas decepções depois, tantos erros depois. A mesma sensação de proteção dentro daquele abraço... ela não queria mais sair dali. Lágrimas saltavam de seus olhos, um suspiro profundo como se estivesse deixando de lado o peso que carregava das suas últimas desilusões, um súbito e celestial sussurro dizendo que tudo ficaria bem.
Quando enfim se afastaram um pouco, ele a surpreendeu com um beijo que começou suave, mas foi se intensificando e transbordando o carinho que ainda sentiam um pelo outro. Naquele momento, Rayana notara que sempre sentira falta daquele beijo, de algo especial, de mágica... Toda vez em que havia lábios unidos aos seus, ela ficava na expectativa... esperando o momento em que os sininhos mágicos tocariam, em que seus pés alcançassem as nuvens, e o coração batesse num compasso guardado há tanto em sua memória. Uma espera em vão... era tudo sempre igual, o mundo continuava a girar, todo o universo funcionando da mesma maneira... até aquele exato momento. E então, toda a magia estava de volta. Nos breves segundos daquele beijo, Rayana viajou para universos paralelos das lembranças mais doces de sua vida. Os mesmos sinos, empoeirados, repletos de teias de aranha, agora se moviam para entoar a mesma canção. As nuvens sob seus pés estavam ainda mais macias. O mesmo gosto, o mesmo toque, a mesma vontade de ficar ali para sempre, mas dessa vez sabendo de toda a impossibilidade. Junto com a emoção, veio medo, veio tristeza, veio a revolta contra o mundo, o destino, a sensação de cair num abismo. Sentia-se perdida... há pouco vinha recuperando seus pedaços e agora iam-se todos novamente, pra longe, para a improbabilidade. A felicidade tão breve já lhe escorrendo entre os dedos. De repente, sua voz saiu fraca, carregada de dor:
- Todos os dias daquele próximo ano em que eu não tinha seus beijos, me doía a vida, me arrasava a sua ausência, eu não queria um futuro sem você, mas tive que vivê-lo mesmo sem vontade...
- Eu não imaginava Rayana... Foi tão pouco tempo e... eu pensei que... que não havia sido importante pra você, sabe?...
- Mas foi... foi muito! Eu chorei em cada dia. Pedi ao universo que te trouxesse de novo pra mim, que nos concedesse ao menos uma despedida, que eu pudesse lhe dar um último beijo e estar mais uma vez dentro do seu abraço. Eu esperei tanto por isso e foi uma espera sofrida, angustiante, longa...
- Eu também fiquei mal com tudo... mas a vida seguiu... tanta coisa aconteceu... E agora isso!
- Isso?
- Esse reencontro e... tudo o que parece querer voltar, mas... não sei...
- Eu entendo, nós não podemos! Eu sei disso e não vou te pedir nada, não vou te impor minha presença, jamais faria isso! A ideia desse encontro foi sua, e eu não posso negar que desejava muito, que desde a primeira troca de palavras, desejei seu beijo e imaginei muito mais além disso. Pensei em tudo o que não aconteceu, como seria cada segundo, cada sensação... sentir seu toque por todo meu corpo, a troca de energia, a emoção de enfim ir além, ouvir você suspirar de prazer, tê-lo dentro de mim... mas...
Lágrimas rolavam impiedosas pelo rosto de Rayana, misturadas às gotas da chuva que começava a aumentar, escorrendo por seu corpo em ebulição. Os trovões eram estrondos que faziam com que ela tremesse ainda mais...
- Eu não posso Hadrian, mas eu te amo, nunca deixei de te amar e sei que isso não vai se acabar. E... eu tenho medo... que...
Nesse instante, Hadrian que ouvia a tudo em silêncio, enquanto revivia cada lembrança daquela paixão, se aproximou mais de Rayana, afastou seus cabelos molhados e a beijou com a intensidade guardada em todos aqueles anos. O mesmo beijo... o mesmo gosto, o mesmo desejo de que aquilo nunca mais acabasse, e dessa vez ele se prolongou e veio acompanhado de um vulcão eclodindo de desejo e consumindo aos dois.
As mãos de Hadrian percorriam o corpo de Rayana junto com a chuva que caía forte, porém agora silenciosa, sem os trovões, apenas o ruído de cada gota batendo contra o chão e os corpos de ambos, que se fundiam em um só, ainda parados no mesmo lugar, incapazes de se moverem. Então, Hadrian levou Rayana até o flamboyant, onde há pouco a aguardava, seus olhos brilhavam e tinham um efeito devastador sobre ela. O corpo dela transbordava um desejo acumulado por longos quinze anos, cada centímetro ansiava por ser tomado por ele. A razão não tinha mais espaço.
Rayana sentiu o impacto das suas costas no tronco da árvore, e o calor dele envolvendo-a, as mãos de Hadrian percorrendo sua cintura, subindo pelas costas, e logo se livrando da blusa molhada e colada em seu corpo. A boca dele explorava seu pescoço, orelha, lábios. Ela não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, sentia medo de que tudo acabasse novamente, tão de repente como fora da primeira vez. Seu coração disparado denunciava que todo aquele amor sempre estivera ali, à espera do momento em que o destino lhe desse tamanho presente.
Ignorando os medos e as incertezas que a rondavam, se entregou ao desejo, abriu cada um dos botões da camisa de Hadrian, deslizando suas mãos pelo peito dele, tocando cada centímetro da sua pele, alcançando suas costas em um abraço faminto. Ele a segurava com força, as duas mãos espalmadas em suas costas, podiam sentir cada parte do corpo um do outro e o som de seus corações acelerados.
Um beijo ardente teve início, mas não teve fim, se prolongou enquanto ambos exploravam um ao outro, enquanto suas línguas bailavam, se enroscavam, os lábios unidos como nunca. Hadrian afastou-se daquele beijo por um instante, sua boca percorreu lentamente o caminho que levava até os seios de Rayana, ainda cobertos, invadiu seu sutiã, mordiscando sua pele alva e macia, passeando com suavidade por todo aquele espaço, primeiro um, depois atravessando até o outro. Voltando-se então para ela, olhou em seus olhos e disse:
- Você não sabe como sonhei com isso...
- Não fala nada... não agora...
Ela o ajudou a livrar-se da camisa... como era bom poder tocá-lo! Hadrian soltou o fecho do sutiã de Rayana, observando como seu corpo ainda conservava um pouco da jovem por quem se apaixonara, mas sem dúvida agora revelando a mulher que se tornara. Passou os dedos por seu colo, seios, sentiu sua pele macia, quente apesar da chuva fria. Ela estava ali e naquele momento era sua, como fora outras vezes naqueles poucos meses que iam tão distantes. Ouviam a natureza recebendo as gotas que caiam do céu, ouviam o som de seus corpos implorando para terem seus desejos saciados. Hadrian agarrou com força a cintura dela, as duas mãos firmes, trazendo seu corpo para que sentisse o dele. Desceu com uma delas até a fenda da saia, subindo, alcançando a calcinha que rapidamente arrancou dela como se enfim despertasse com uma sede por saciar, bem ali, na boca, no corpo de Rayana. Seus dedos alcançaram o ponto exato e ela vibrou e gemeu de prazer enquanto Hadrian brincava com todo aquele desejo. Ela queria mais, muito mais, precisa tê-lo dentro de si, tinha urgência de senti-lo indo profundamente em seu corpo. Desabotoou a calça dele, e pode sentir que essa não era somente sua vontade. Ouviu seu suspiro e a reação ao seu toque:
- Eu preciso de você Hadrian... eu preciso de você dentro de mim...
Dizendo isso, ela o guiou para onde desejava, o corpo molhado da chuva e de prazer, pronto para recebê-lo. Com as duas mãos em suas costas, ele a levantou e vagarosamente foi se encaixando dentro dela, uma sensação única, nunca sentida por nenhum dos dois, um momento esperado por tanto tempo, carregado de sentimentos, de lembranças. Com as costas apoiadas no tronco da árvore, ela enlaçou a cintura de Hadrian com as pernas, fazendo com que ele a alcançasse ainda mais profundamente. Alguns segundos permaneceram assim, apenas sentindo o corpo um do outro, e como se fundiam num encaixe perfeito. Duas peças perdidas de um mesmo quebra cabeças, agora unidas mais uma vez. Então, com as mãos nos quadris de Rayana, ele passou a controlar os movimentos, invadia seu corpo e depois saía para em seguida, voltar com mais desejo. Com os braços envolvendo-o, ela o beijava com uma vontade enlouquecedora. Corpos vibrantes, respirações descompassadas e corações que saltavam num mesmo ritmo frenético, acompanhado do ir e vir que agora indicava a necessidade de ambos de se satisfazerem. Ela já não aguentava mais e sabia que Hadrian lutava para se controlar, então sussurrou em seu ouvido:
- Hadrian querido, venha comigo...
Notou como ele fechou os olhos e suspirou. Ela sorriu levemente, ele cravou as mãos ainda mais fortes em seus quadris, a invadiu ainda uma vez, forte, e ouviu seu gemido rouco, enquanto sentia seu corpo se contrair de prazer e o de Hadrian vibrar dentro dela. Nem em seus mais lindos sonhos ela poderia imaginar que fosse tão bom, não sabia descrever ou comparar aquela sensação a qualquer outra coisa. Sua alma saltara numa lagoa de cristalina alegria, sentia-se leve, flutuante. Desceu as pernas, buscando o chão, os braços ainda envolvendo Hadrian e agora, os dele também a acolhiam em um abraço. Seus corpos se apoiavam mutuamente, em busca de energia, respirações ainda ofegantes, corações que não se cansavam da batida em disparada. Ele tocou seu rosto com carinho e pousou nos lábios dela um beijo envolvente.
Pegou-a pela mão e a levou até o banco onde estava enquanto a esperava. Sentou-se e foi surpreendido por um olhar que ardia de desejo.
- Foi pouco pra tanto tempo de espera... eu quero mais, muito mais... coloque essa perna do outro lado do banco e vamos brincar!
Enlouquecido pela mulher que Rayana se tornara, ele fez imediatamente o que pedira. Ela se aproximou e sentou-se sobre ele, uma perna de cada lado, os joelhos dobrados. Olhou em seus olhos com um sorriso repleto de malícia, sem desviar o olhar chegou ainda mais perto, provocando Hadrian com beijos e leves mordidas nos lábios, no pescoço, na orelha... Ele abocanhou seu seio que dançava bem na sua frente e ela sentiu um arrepio lhe percorrer todo o corpo. Com uma das mãos, mais uma vez buscou o prazer dele, que assim como o dela, já estava pronto para começar tudo novamente. Ela o posicionou, fez com que a tocasse de leve, e então desceu sobre ele aos poucos, sentindo cada centímetro invadi-la, ocupando todo seu ser, preenchendo o vazio deixado no passado.
A chuva continuava a cair ainda forte e junto com ela, Rayana dançava sobre o corpo de Hadrian. Começava devagar, ia aumentando a velocidade e quando percebia que ambos já estavam prestes a explodir de prazer, parava e começava novamente. Queria prolongar aquilo tudo por um tempo indefinido. Saber que em breve estaria longe dos braços dele novamente a fazia sentir-se prestes a despencar de um abismo, pensar que viveria uma nova separação e que dessa vez deveria ser para sempre trazia lágrimas aos seus olhos e uma dor profunda em seu coração. Não podia deixar esses pensamentos tomarem conta do momento, ele ainda estava ali e ela também... Então, esticou as pernas, cruzando-as nas costas de Hadrian, o contato era perfeito, cada parte do corpo de um, unida ao corpo do outro. Num ir e vir rápido, com movimentos curtos mas fortes e profundos, estavam mais uma vez entregues ao prazer, um desejo guardado por tantos anos, que só fez crescer a cada dia de ausência, de saudade, de dúvida, de tristeza... Absorta em seus pensamentos e nas sensações que Hadrian provocava, Rayana ainda ouviu ele sussurrar seu nome, enroscar as mãos em seus cabelos molhados e gemer mais uma vez, explodindo dentro dela. Ela também tinha seus estilhaços novamente espalhados pelo universo, e como era bom...

O sol lançava seus últimos raios do entardecer através das nuvens e da chuva que agora caía fina. Em poucos instantes a noite chegaria com suas estrelas e a lua, a mesma lua pra qual em todas as noites, Rayana olhara, tendo nos pensamentos um grande amor do passado, o maior que já sentira. Sabia que de novo, observaria o céu negro e teria seu coração em cacos, partido pelas lembranças antigas e agora, pelas lembranças daquela tarde. Em cada estrela veria o brilho dos olhos de Hadrian, sentiria na brisa o toque das mãos dele e ao enfim adormecer, teria os sonhos povoados do seu sempre amor. Mas agora... agora era preciso voltar. A realidade estava fora daquele parque. Dessa vez a vida lhe dava a chance de uma despedida, ainda que fosse tudo o que ela não quisesse. Em sua vida não havia felizes para sempre, a felicidade sempre lhe fora fugaz e mais uma vez, tocara-lhe a alma e partia sem ter data marcada pra voltar. Era preciso dizer adeus, ainda que seus lábios teimassem em dizer a Hadrian “Eu te amo!”

domingo, 17 de agosto de 2014

Puramente MULHER


Desde aquele domingo, a vida de Sylvia sofrera uma mudança impactante. O fim do relacionamento ruíra com o “eu” que lutara para reconstruir. O destino lhe mandara uma série de acontecimentos, sem que tivesse tempo de absorvê-los. O fim do casamento de longos anos, a redescoberta do seu corpo, do seu poder, do prazer que era capaz de sentir e oferecer. Se entregara às delicias do sexo totalmente desvinculado do amor ou da ideia de compromisso. Buscava satisfazer seus desejos, sem preocupações com o amanhã, livre de preconceitos e sem restrições. Vivia cada momento com intensidade, e se sentia realizada. Evitara sair com pessoas que buscavam algo diferente disso, mas não sabia ainda explicar porque quebrara esse ciclo e se envolvera com Marx, tendo plena consciência de que ainda não era o momento, e que ele, sem dúvida, não seria a pessoa ideal para ajudá-la.
O fato é que o amara verdadeiramente, mesmo que tudo tivesse durado tão pouco tempo. Por essa razão, fechara totalmente seu mundo para novas visitas, por longos meses. Porém, seu corpo pedia por sexo, apesar do coração ainda ser completamente de Marx. Sabia que ainda levaria muito tempo para se envolver novamente, para ter os sentimentos despertados por um outro alguém, mas também estava certa de que era capaz de se entregar ao prazer, puro, livre de todo o resto.
Enfim, decidiu retomar a vida, pegar as rédeas, ter o controle da situação. Já não dava mais para continuar enclausurada nas lembranças daquele passado. Retomou seus contatos, sabia bem onde conseguir exatamente o que queria, e teria com certeza suas tardes de terça novamente cheirando a sexo.
Então, alguns minutos e já tinha três convites. Ficava excitada quando podia escolher. Sabia que suas escolhas nunca seriam como a da maioria das mulheres. Já que sua única intenção era o prazer, suas primeiras opções eram os mais altos, fortes, e que demonstravam alguma dominância. Gostava de homens com atitude na cama e odiava os muito passivos. Ficou com o 1,90 de um cara de 30 anos, com quem falou alguns pouquíssimos minutos, certificando-se de serem quem realmente diziam ser. Logo percebeu que fizera a escolha certa. Ele imediatamente questionou se um encontro direto em algum motel seria algo precipitado, ao que Sylvia sorriu e lançou um satisfeito “não”. Tinha certeza de que sua terça seria animada.
O trabalho lhe consumia muito tempo, e no pouco que lhe sobrava, estava sempre exausta. A terça era o único dia da semana em que tinha algumas horas da tarde sem compromissos, e que nos últimos meses havia usado para se enfiar na cama e reviver as lembranças daquele amor. Já era tempo de deixar o casulo e alcançar novos voos, e o primeiro estava prestes a decolar.
Deixou o trabalho com o coração descompassado e o corpo vibrando. Ele já estava aguardando por Sylvia. Ela estacionou o carro na garagem, abriu a porta vagarosamente e ele veio recebê-la. Realmente sua presença era imponente, e mesmo com o salto, ela precisou ficar na ponta dos pés para alcançá-lo em um primeiro beijo. Cassiano então se afastou, dizendo precisar de uma ducha, enquanto ela se acomodou na cama, procurando uma boa música. Logo ele se fez novamente presente, abriu um vinho e serviu aos dois, sentando-se ao lado dela na cama e conversando sobre banalidades. Aproximou-se mais, beijando seus lábios com desejo, deitando-a na cama e colando seu corpo ao dela de maneira provocante. Ela já estava louca por aquilo, e sentiu que ele também. Cassiano beijava Sylvia enquanto tocava seus seios com força, pressionando-se contra ela, que pode notar que ele todo era proporcional ao 1,90 de altura! Ele desabotoou o vestido dela, depois o sutiã, e quando pousou a boca nos seios dela, arrancou suspiros de desejo, aprovação e surpresa... ele sabia muito bem como fazer aquilo!
Sylvia gostava de contato, de sentir um homem lhe preenchendo. Recebia as bocas que invadiam seu sexo, mas sem que lhe causassem um grande prazer. Porém, quando Cassiano abriu as pernas dela e começou com a brincadeira, ela descobriu que o problema não era com sua preferência, mas sim com as bocas pouco experientes que estiveram por ali. Era incrível como, sem nunca terem ficado juntos, Cassiano sabia exatamente onde e como tocá-la. Sua boca e língua bailavam com maestria e causavam a ela choques intensos de prazer. Em poucos segundos ela já estava louca e lutando para controlar seu corpo que se encontrava tão precipitadamente à beira do abismo. Ele não tinha pressa, provocava Sylvia e ela retribuía, tocava seu corpo, se entregava, também brincava com a vontade que ele demonstrava, primeiro com as mãos, e depois, trocando de posição, com a boca. O corpo de Cassiano também vibrava de prazer, em especial aquela parte que Sylvia agora tinha na boca, oferecendo sua melhor performance em lambidas, leves mordidas, e o devorando com vontade. Sentia que ele estava prestes a se jogar no mesmo abismo, que lutava para controlar o desejo, e então, quando chegou ao limite, a pegou com facilidade, levando-a para si, saboreando a boca de Sylvia que ainda carregava o gosto dele. Ambos, com pressa, prontos um para o outro, viram seus corpos se fundirem. Ele a invadiu, e ela o sentiu atravessando seu corpo e alcançando um ponto distante, lhe proporcionando uma sensação única.
Sobre ele, Sylvia comandava o ritmo e a profundidade, mas Cassiano era dominador, e com as mãos cravadas em seus quadris, a surpreendia quando a apertava contra si com uma força absurda, exatamente da maneira como ela adorava. Demonstrando ainda mais o conhecimento que possuía da anatomia feminina, ele segurou o corpo de Sylvia colado ao seu, e começou a fazer movimentos curtos, roçando no clitóris dela, e a fazendo ferver. Não demorou muito para que ela enfim liberasse seu corpo para o prazer, caindo vagarosamente num abismo profundo de sensações e, novamente se surpreendendo ao notar e sentir que Cassiano pulara junto com ela, no mesmo instante. Dentro dela, seus espasmos de prazer vibravam, levando um tempo, no silêncio que se seguiu ao último gemido, para se acalmarem.
O calor deixara seus corpos suados, e Cassiano convidou Sylvia para a banheira. Os dois relaxaram por alguns minutos, até que ele a chamou para mais perto, colocou-a em seu colo, brincando com seus seios, descendo as mãos por seu corpo todo. Então se levantou e sentou-se no mármore que adornava a banheira. Ela logo entendeu o que ele queria, e lhe ofereceu todas as sensações que sua boca era capaz de proporcionar, enquanto suas mãos percorriam as pernas dele, oscilando entre toques suaves e também com pressão. Cassiano gemia e seu corpo todo tremia de prazer. Louco de desejo, pegou-a nos braços e se jogaram na cama para continuar aquele momento intenso.
Ele novamente a despertou com a boca, para então invadi-la com força e profundidade, arrancando-lhe um grito abafado de prazer. O vai e vem ali durou pouco, pois ele a virou rapidamente para continuar aquele exercício que dominava tão bem. Ele a invadia, entrava e saía dela, primeiro devagar e depois aumentando o ritmo, e quando estava prestes a atingir seu objetivo, parava se enfiando profundamente nela. Sylvia estava enlouquecida com o poder daquele homem, a agilidade e o vigor que demonstrava. Logo, novamente, saiu de dentro dela, sentou-se na cama e a trouxe para que pudesse cavalgá-lo. Ele sustentava o próprio corpo e também ao dela, possibilitando que se movesse sobre ele. A sensação era incrível, como Sylvia nunca havia experimentado antes. Ele comprimia o corpo dela para que o contato entre os dois fosse o maior possível. Mais uma vez ela tinha o “botãozinho mágico” estimulado, choques a percorriam o tempo todo, e ela gemia devido a um prazer nunca antes sentido.
Enquanto ela subia e descia de Cassiano, ele abocanhava seus seios, os devorava com vontade, brincava com o corpo de Sylvia como um jogador muito experiente, e no topo dos melhores, e ela, a cada minuto, se surpreendia mais com o que ele era capaz de fazer, e ela de sentir. Cassiano cravou as mãos nos quadris dela, direcionando os movimentos... curtos, profundos, fortes. Não demorou para que mais uma vez Sylvia se entregasse aquele deus do sexo, e ele deixasse um grito rouco de prazer lhe escapar, também totalmente entregue à intensidade daquele momento.
Ambos desabaram na cama, corpos tomados de calor, músculos tremendo de prazer, num pós orgasmo fantástico. A banheira mais uma vez aplacou as chamas que tomavam a ambos, e Sylvia foi pega de surpresa ao receber de Cassiano uma deliciosa massagem nos pés, que não serviu ao propósito de relaxar, e sim manter todos os seus sentidos ainda mais aguçados. O conhecimento dele sobre o corpo de uma mulher era algo impressionante. Cada toque, em cada lugar, trazia uma sensação diferente de prazer. Dessa vez, antes que voltassem para a cama, ele colocou Sylvia apoiada sobre as bordas da banheira, e a fez enlouquecer mais uma vez... enquanto suas mãos davam a volta ao redor do corpo dela, alcançando seus seios, ele a preenchia novamente, deslizando aos poucos, em instantes de quase sofrimento, parando ao estar todo dentro dela, para então recomeçar o jogo. As mãos desceram mais para alcançar aquele pedacinho que nunca fora tão estimulado quanto naquela tarde. Não precisou muito para que o corpo de Sylvia, já tão sensível pelos três orgasmos intensos em tão curto período de tempo, se aproximasse de mais um, e então se jogasse desesperadamente nele, quase sem acreditar que mais uma vez aquele homem fora capaz de entregar mil estrelas de prazer.
Voltaram para a cama, Sylvia na certeza de que aquela maratona se dava ali por encerrada. Deitou-se relaxada na cama, Cassiano ao seu lado. Ela evitava todo contato que não fosse apenas sexual, não queria demonstrações de carinho ou afeto, só o puro prazer, mas naquele instante ele tomou sua mão, acariciando seus dedos... olhou nos olhos dela, sorriu e a beijou. Nesse instante ela notou que havia mais, o corpo de Cassiano denunciava que ele ainda a desejava. Puxou-a para cima de si, ela mais uma vez deslizou a boca por aquele corpo enorme, chegando ao seu destino. Precisava oferecer ao menos metade de todo o prazer que recebera, e sua boca iria mais uma vez começar a brincadeira. Oscilava entre leves mordidas por todo ele, e depois pausas para que o chupasse com vontade, sua língua também passeando por ali. As mãos dela passeavam pelas pernas de Cassiano, subiam, o acariciavam, e ele... suspirava entre os dentes e gemia enquanto o corpo convulsionava de prazer. Ele implorava para que ela parasse por ali, e continuasse de outra forma, mas ela queria mais... desejava deixá-lo no limite... e logo conseguiu. Quando se lançou sobre ele, imediatamente Cassiano a deitou na cama, trocando de lugar com ela, seu 1,90 dominando e tomando todo o pequeno corpo de Sylvia. Sem demora, ele guiou-se para dentro dela... mais uma vez ela sussurrava mentalmente um “uau” ao sentir como ele a alcançava longe, ali dentro dela, como a ocupava completamente, como seu corpo se dilatava para recebê-lo. Como se houvessem começado tudo naquele momento, ele entrava e saía dela com uma fúria que novamente a fazia soltar gritos de prazer. O corpo de Sylvia afundava na cama a cada vez em que ele também se afundava nela. E, inacreditavelmente, ela sabia que se encaminhava para o precipício, uma última vez... Como havia feito tão bem, Cassiano colou seu corpo ao dela, o atrito maravilhoso, perfeito, como se apesar dos tantos centímetros que a faziam tão pequena perto dele, nem existissem, e seus corpos fossem feitos para aquele encaixe.   
Um incêndio os consumia, e a cada vez que Cassiano arremessava seu corpo contra o de Sylvia, as faíscas explodiam pelo quarto. Numa combustão de desejo e prazer, ambos explodiram, mais um salto...
Se sentindo tomada por uma alegria e uma leveza deliciosa, Sylvia descansou na cama por alguns segundos , mas... já era hora, precisava ir, ainda tinha uma noite de trabalho pela frente. Com o corpo dolorido pela maratona que enfrentara naquela tarde, tomou um banho rápido e entrou em seu uniforme. Despediu-se de Cassiano com um beijo e uma vontade louca de guardar aquele exímio exemplar masculino para si.

Quando saiu com o carro para a vida lá fora, sabia que aquela tarde havia a transformado completamente, era um marco. Nunca se sentira tão puramente mulher como naquele encontro com Cassiano. Pela primeira vez Marx não se fizera presente em seus pensamentos, não era mais aquela sombra sempre pairando nos momentos mais inadequados. Ela encontrara alguém que fora capaz de despertar seu corpo mais do que Marx conseguira. Até aquela tarde, era escrava do prazer que ele lhe proporcionara naqueles meses em que estiveram juntos. Agora, depois de ganhar de presente, cinco deliciosos orgasmos, num tempo recorde de duas horas e meia, ela se libertara. Cassiano cortara as amarras que a prendiam naquele passado, libertara Sylvia novamente para o mundo. Cada músculo dela doía devido ao esforço empenhado com aquele homem maravilhoso, porém, havia um lugar onde agora não existia mais dor... seu coração, aquele lugarzinho que sofrera tanto com a ausência de Marx, que só experimentara a dor nos últimos meses, ali, agora, uma doce alegria reinava, e Sylvia sabia que era algo para ficar. Sua alma, perdida pelo caminho, fora reencontrada e tinha sede de vida. Uma chama reacendera dentro dela, o sangue corria quente nas veias, os olhos brilhavam e um sorriso enfeitava seu rosto. Seguia então pelo novo caminho que se descortinava à sua frente, os vidros do carro abertos ecoavam para o mundo a alegria de uma canção... “girls just wanna have fun...”

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Vem borrar meu batom!

Sai logo desse porta retratos... vem... deixa de lado essa demora... essa espera... Chega com aquele seu jeito de menino que sempre me fazia sorrir. Cola tuas mãos em mim, sente cada pedaço do meu corpo e me deixa mais uma vez sentir o seu. Me beija, invade a minha boca, devora meu gosto e me dá o seu que eu tanto adoro... deixa tua língua dançar com a minha, deixa sua vida se perder com a minha... deixa vai? Chega mais perto... bem mais... eu preciso sentir seu calor... seu cheiro que eu ainda não esqueci. Me abraça e me deixa te apertar em meus braços tão vazios de você. Sussurra mais uma vez em meus ouvidos e faz aquele arrepio subir pelo meu corpo... aquele desejo tomar conta de mim... Corre suas mãos pelas minhas costas, desabotoa esse maldito sutiã e vem passear pelos meus seios... os dedos... a boca! Enquanto isso me deixa brincar com seus cabelos, mordiscar sua orelha, lamber seu gosto. Mas... não se contente com isso, você quer mais e eu... ah... eu quero muito mais! Sobe minha saia com suas mãos roçando por minhas pernas, e quando eu achar que esse joguinho ainda vai longe, puxe minha calcinha pra me mostrar que tem pressa, porque eu também tenho! Me abra com seus dedos e me sinta já molhada, enquanto eu invado tua calça e encontro o que queria. Brinque comigo, que eu sempre adoro brincar com você. Peça pela minha boca no seu desejo... eu irei... e sentirei ainda mais o seu gosto... me chame de volta... porque já não dá mais pra aguentar! Num ímpeto, me possua! Me invada! Me faça sua... só sua... tome posse do meu corpo e da minha alma. Entre e saia de mim com toda sua vontade, me deixe notar o quanto desejou isso, que sinto como uma necessidade. Ocupe cada espaço que você deixou vazio em mim... no meu corpo e no meu coração... Olhe nos meus olhos, quero tanto olhar para os teus. Me beije mais... quero tomar seus gemidos pra mim e lhe entregar todos os meus. Me aqueça... tem feito tanto frio... E enfim, quando for a hora, se entregue, se derrame... me receba... e não vá tão rápido, fique mais dentro de mim, para que meu corpo guarde a sensação de tê-lo mais uma vez, para que eu continue a sentir seu toque... Uma última vez, dê o último beijo... intenso, longo, sem pressa de dizer adeus, com vontade de ficar pra sempre! E por favor, não esqueça de dizer em meus ouvidos aquilo que você sabe tão bem... pra que sua voz continue a ecoar por todos os cantos da minha vida e do meu corpo...