Apesar de ainda não ter o manto da
noite cobrindo o céu, a tempestade que se anunciava escurecera por completo a
tarde. Rayana saíra uma hora mais cedo do que normalmente costumava deixar o
suntuoso prédio onde gerenciava um dos setores de uma grande empresa de
marketing.
Podia-se notar a tensão em seu rosto e
em seus passos que tentavam parecer firmes, mas oscilavam sob os saltos do
sapato preto. Pegou o carro no subsolo do prédio e saiu pelas ruas. Odiava se
atrasar e contava com apenas quinze minutos para atravessar toda a cidade e
chegar até o local combinado. Adorava aquele parque, as árvores imponentes,
flores por todos os lados , os pássaros trazendo uma doce alegria. Ficou
surpresa quando Hadrian sugeriu que se encontrassem lá, não imaginava que ele
se lembrasse daquele lugar após tanto tempo longe. Esperava algo mais prático,
discreto, estava tão acostumada com seus encontros furtivos, sempre com o mesmo
objetivo: sexo casual, nada de cobrança, de ligações mais profundas, de dia
seguinte, de expectativas, apenas o prazer físico. E então, sentia-se perdida
com aquele toque romântico e tão puro quanto fora quando se conheceram há
tantos anos.
Hadrian sempre lhe despertara um lado
bom, calmo, ainda se lembrava muito bem da sensação de proteção que tinha nos
momentos em que estavam juntos, e lhe doía notar que nunca mais se sentira
segura com outro alguém.
As lembranças tumultuavam os
pensamentos de Rayana enquanto ela tentava se concentrar no trânsito. Não
conseguia deixar de imaginar o que poderia acontecer quando se encontrassem.
Tinha medo... um medo terrível de que aquele amor voltasse tão forte quanto
antes, não seria capaz de conviver com mais isso, não sabia porque aceitara
aquele risco, ou talvez não quisesse admitir a louca vontade que sentia de
abraçá-lo mais uma vez. As nuvens no céu se agitavam da mesma forma que seu
coração, as batidas como os estrondos dos trovões.
Enfim chegou. Devido ao mau tempo, não
havia outras pessoas ali. Desceu do carro, caminhou um pouco e logo observou
alguém sentado em um dos bancos, debaixo de um frondoso flamboyant, só podia
ser ele! Pegou o celular na bolsa, procurou por um número em seus registros e
ligou enquanto seus olhos permaneciam fixos naquele que provavelmente fora seu
grande amor. Viu ele tirar o aparelho do bolso e observar a tela, imediatamente
se virou para procurá-la. Sim, era ele! Levantou-se rapidamente, caminhando ao
encontro dela. Os sentimentos mais diversos perpassavam a alma de Rayana, uma
emoção tão forte querendo aflorar enquanto ela lutava para controlar-se.
- Nossa... oi! Quanto tempo... você
está ainda mais linda!
- Foi por isso que me apaixonei por
você, um galanteador nato! Me dá um abraço?
Ela não acreditava que havia dito
aquilo, e ainda pedido um abraço! Mas precisava sentir seu toque, seu calor,
sentir que estavam ali... e juntos. E então, com um sorriso tímido, ele a
abraçou. Naquele momento, tudo o que Rayana lutara para conter, tornara-se
totalmente incontrolável. Ele estava ali tantos anos depois, tantas decepções
depois, tantos erros depois. A mesma sensação de proteção dentro daquele
abraço... ela não queria mais sair dali. Lágrimas saltavam de seus olhos, um
suspiro profundo como se estivesse deixando de lado o peso que carregava das
suas últimas desilusões, um súbito e celestial sussurro dizendo que tudo
ficaria bem.
Quando enfim se afastaram um pouco, ele
a surpreendeu com um beijo que começou suave, mas foi se intensificando e
transbordando o carinho que ainda sentiam um pelo outro. Naquele momento,
Rayana notara que sempre sentira falta daquele beijo, de algo especial, de
mágica... Toda vez em que havia lábios unidos aos seus, ela ficava na expectativa...
esperando o momento em que os sininhos mágicos tocariam, em que seus pés
alcançassem as nuvens, e o coração batesse num compasso guardado há tanto em
sua memória. Uma espera em vão... era tudo sempre igual, o mundo continuava a
girar, todo o universo funcionando da mesma maneira... até aquele exato
momento. E então, toda a magia estava de volta. Nos breves segundos daquele
beijo, Rayana viajou para universos paralelos das lembranças mais doces de sua
vida. Os mesmos sinos, empoeirados, repletos de teias de aranha, agora se
moviam para entoar a mesma canção. As nuvens sob seus pés estavam ainda mais
macias. O mesmo gosto, o mesmo toque, a mesma vontade de ficar ali para sempre,
mas dessa vez sabendo de toda a impossibilidade. Junto com a emoção, veio medo,
veio tristeza, veio a revolta contra o mundo, o destino, a sensação de cair num
abismo. Sentia-se perdida... há pouco vinha recuperando seus pedaços e agora
iam-se todos novamente, pra longe, para a improbabilidade. A felicidade tão breve
já lhe escorrendo entre os dedos. De repente, sua voz saiu fraca, carregada de
dor:
- Todos os dias daquele próximo ano em
que eu não tinha seus beijos, me doía a vida, me arrasava a sua ausência, eu
não queria um futuro sem você, mas tive que vivê-lo mesmo sem vontade...
- Eu não imaginava Rayana... Foi tão
pouco tempo e... eu pensei que... que não havia sido importante pra você,
sabe?...
- Mas foi... foi muito! Eu chorei em
cada dia. Pedi ao universo que te trouxesse de novo pra mim, que nos concedesse
ao menos uma despedida, que eu pudesse lhe dar um último beijo e estar mais uma
vez dentro do seu abraço. Eu esperei tanto por isso e foi uma espera sofrida,
angustiante, longa...
- Eu também fiquei mal com tudo... mas
a vida seguiu... tanta coisa aconteceu... E agora isso!
- Isso?
- Esse reencontro e... tudo o que
parece querer voltar, mas... não sei...
- Eu entendo, nós não podemos! Eu sei
disso e não vou te pedir nada, não vou te impor minha presença, jamais faria
isso! A ideia desse encontro foi sua, e eu não posso negar que desejava muito,
que desde a primeira troca de palavras, desejei seu beijo e imaginei muito mais
além disso. Pensei em tudo o que não aconteceu, como seria cada segundo, cada
sensação... sentir seu toque por todo meu corpo, a troca de energia, a emoção
de enfim ir além, ouvir você suspirar de prazer, tê-lo dentro de mim... mas...
Lágrimas rolavam impiedosas pelo rosto
de Rayana, misturadas às gotas da chuva que começava a aumentar, escorrendo por
seu corpo em ebulição. Os trovões eram estrondos que faziam com que ela
tremesse ainda mais...
- Eu não posso Hadrian, mas eu te amo,
nunca deixei de te amar e sei que isso não vai se acabar. E... eu tenho medo...
que...
Nesse instante, Hadrian que ouvia a
tudo em silêncio, enquanto revivia cada lembrança daquela paixão, se aproximou
mais de Rayana, afastou seus cabelos molhados e a beijou com a intensidade
guardada em todos aqueles anos. O mesmo beijo... o mesmo gosto, o mesmo desejo
de que aquilo nunca mais acabasse, e dessa vez ele se prolongou e veio
acompanhado de um vulcão eclodindo de desejo e consumindo aos dois.
As mãos de Hadrian percorriam o corpo
de Rayana junto com a chuva que caía forte, porém agora silenciosa, sem os
trovões, apenas o ruído de cada gota batendo contra o chão e os corpos de
ambos, que se fundiam em um só, ainda parados no mesmo lugar, incapazes de se
moverem. Então, Hadrian levou Rayana até o flamboyant, onde há pouco a
aguardava, seus olhos brilhavam e tinham um efeito devastador sobre ela. O
corpo dela transbordava um desejo acumulado por longos quinze anos, cada
centímetro ansiava por ser tomado por ele. A razão não tinha mais espaço.
Rayana sentiu o impacto das suas costas
no tronco da árvore, e o calor dele envolvendo-a, as mãos de Hadrian
percorrendo sua cintura, subindo pelas costas, e logo se livrando da blusa
molhada e colada em seu corpo. A boca dele explorava seu pescoço, orelha,
lábios. Ela não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, sentia medo de
que tudo acabasse novamente, tão de repente como fora da primeira vez. Seu
coração disparado denunciava que todo aquele amor sempre estivera ali, à espera
do momento em que o destino lhe desse tamanho presente.
Ignorando os medos e as incertezas que
a rondavam, se entregou ao desejo, abriu cada um dos botões da camisa de
Hadrian, deslizando suas mãos pelo peito dele, tocando cada centímetro da sua
pele, alcançando suas costas em um abraço faminto. Ele a segurava com força, as
duas mãos espalmadas em suas costas, podiam sentir cada parte do corpo um do
outro e o som de seus corações acelerados.
Um beijo ardente teve início, mas não
teve fim, se prolongou enquanto ambos exploravam um ao outro, enquanto suas
línguas bailavam, se enroscavam, os lábios unidos como nunca. Hadrian
afastou-se daquele beijo por um instante, sua boca percorreu lentamente o
caminho que levava até os seios de Rayana, ainda cobertos, invadiu seu sutiã,
mordiscando sua pele alva e macia, passeando com suavidade por todo aquele
espaço, primeiro um, depois atravessando até o outro. Voltando-se então para
ela, olhou em seus olhos e disse:
- Você não sabe como sonhei com isso...
- Não fala nada... não agora...
Ela o ajudou a livrar-se da camisa... como
era bom poder tocá-lo! Hadrian soltou o fecho do sutiã de Rayana, observando
como seu corpo ainda conservava um pouco da jovem por quem se apaixonara, mas
sem dúvida agora revelando a mulher que se tornara. Passou os dedos por seu
colo, seios, sentiu sua pele macia, quente apesar da chuva fria. Ela estava ali
e naquele momento era sua, como fora outras vezes naqueles poucos meses que iam
tão distantes. Ouviam a natureza recebendo as gotas que caiam do céu, ouviam o
som de seus corpos implorando para terem seus desejos saciados. Hadrian agarrou
com força a cintura dela, as duas mãos firmes, trazendo seu corpo para que
sentisse o dele. Desceu com uma delas até a fenda da saia, subindo, alcançando
a calcinha que rapidamente arrancou dela como se enfim despertasse com uma sede
por saciar, bem ali, na boca, no corpo de Rayana. Seus dedos alcançaram o ponto
exato e ela vibrou e gemeu de prazer enquanto Hadrian brincava com todo aquele
desejo. Ela queria mais, muito mais, precisa tê-lo dentro de si, tinha urgência
de senti-lo indo profundamente em seu corpo. Desabotoou a calça dele, e pode
sentir que essa não era somente sua vontade. Ouviu seu suspiro e a reação ao
seu toque:
- Eu preciso de você Hadrian... eu
preciso de você dentro de mim...
Dizendo isso, ela o guiou para onde
desejava, o corpo molhado da chuva e de prazer, pronto para recebê-lo. Com as
duas mãos em suas costas, ele a levantou e vagarosamente foi se encaixando
dentro dela, uma sensação única, nunca sentida por nenhum dos dois, um momento
esperado por tanto tempo, carregado de sentimentos, de lembranças. Com as
costas apoiadas no tronco da árvore, ela enlaçou a cintura de Hadrian com as
pernas, fazendo com que ele a alcançasse ainda mais profundamente. Alguns
segundos permaneceram assim, apenas sentindo o corpo um do outro, e como se
fundiam num encaixe perfeito. Duas peças perdidas de um mesmo quebra cabeças,
agora unidas mais uma vez. Então, com as mãos nos quadris de Rayana, ele passou
a controlar os movimentos, invadia seu corpo e depois saía para em seguida,
voltar com mais desejo. Com os braços envolvendo-o, ela o beijava com uma
vontade enlouquecedora. Corpos vibrantes, respirações descompassadas e corações
que saltavam num mesmo ritmo frenético, acompanhado do ir e vir que agora
indicava a necessidade de ambos de se satisfazerem. Ela já não aguentava mais e
sabia que Hadrian lutava para se controlar, então sussurrou em seu ouvido:
- Hadrian querido, venha comigo...
Notou como ele fechou os olhos e
suspirou. Ela sorriu levemente, ele cravou as mãos ainda mais fortes em seus
quadris, a invadiu ainda uma vez, forte, e ouviu seu gemido rouco, enquanto
sentia seu corpo se contrair de prazer e o de Hadrian vibrar dentro dela. Nem
em seus mais lindos sonhos ela poderia imaginar que fosse tão bom, não sabia
descrever ou comparar aquela sensação a qualquer outra coisa. Sua alma saltara
numa lagoa de cristalina alegria, sentia-se leve, flutuante. Desceu as pernas,
buscando o chão, os braços ainda envolvendo Hadrian e agora, os dele também a
acolhiam em um abraço. Seus corpos se apoiavam mutuamente, em busca de energia,
respirações ainda ofegantes, corações que não se cansavam da batida em
disparada. Ele tocou seu rosto com carinho e pousou nos lábios dela um beijo
envolvente.
Pegou-a pela mão e a levou até o banco
onde estava enquanto a esperava. Sentou-se e foi surpreendido por um olhar que
ardia de desejo.
- Foi pouco pra tanto tempo de
espera... eu quero mais, muito mais... coloque essa perna do outro lado do
banco e vamos brincar!
Enlouquecido pela mulher que Rayana se
tornara, ele fez imediatamente o que pedira. Ela se aproximou e sentou-se sobre
ele, uma perna de cada lado, os joelhos dobrados. Olhou em seus olhos com um
sorriso repleto de malícia, sem desviar o olhar chegou ainda mais perto,
provocando Hadrian com beijos e leves mordidas nos lábios, no pescoço, na
orelha... Ele abocanhou seu seio que dançava bem na sua frente e ela sentiu um
arrepio lhe percorrer todo o corpo. Com uma das mãos, mais uma vez buscou o
prazer dele, que assim como o dela, já estava pronto para começar tudo
novamente. Ela o posicionou, fez com que a tocasse de leve, e então desceu
sobre ele aos poucos, sentindo cada centímetro invadi-la, ocupando todo seu
ser, preenchendo o vazio deixado no passado.
A chuva continuava a cair ainda forte e
junto com ela, Rayana dançava sobre o corpo de Hadrian. Começava devagar, ia
aumentando a velocidade e quando percebia que ambos já estavam prestes a
explodir de prazer, parava e começava novamente. Queria prolongar aquilo tudo
por um tempo indefinido. Saber que em breve estaria longe dos braços dele
novamente a fazia sentir-se prestes a despencar de um abismo, pensar que
viveria uma nova separação e que dessa vez deveria ser para sempre trazia
lágrimas aos seus olhos e uma dor profunda em seu coração. Não podia deixar
esses pensamentos tomarem conta do momento, ele ainda estava ali e ela
também... Então, esticou as pernas, cruzando-as nas costas de Hadrian, o contato
era perfeito, cada parte do corpo de um, unida ao corpo do outro. Num ir e vir
rápido, com movimentos curtos mas fortes e profundos, estavam mais uma vez
entregues ao prazer, um desejo guardado por tantos anos, que só fez crescer a
cada dia de ausência, de saudade, de dúvida, de tristeza... Absorta em seus
pensamentos e nas sensações que Hadrian provocava, Rayana ainda ouviu ele
sussurrar seu nome, enroscar as mãos em seus cabelos molhados e gemer mais uma
vez, explodindo dentro dela. Ela também tinha seus estilhaços novamente
espalhados pelo universo, e como era bom...
O sol lançava seus últimos raios do
entardecer através das nuvens e da chuva que agora caía fina. Em poucos
instantes a noite chegaria com suas estrelas e a lua, a mesma lua pra qual em todas
as noites, Rayana olhara, tendo nos pensamentos um grande amor do passado, o
maior que já sentira. Sabia que de novo, observaria o céu negro e teria seu
coração em cacos, partido pelas lembranças antigas e agora, pelas lembranças
daquela tarde. Em cada estrela veria o brilho dos olhos de Hadrian, sentiria na
brisa o toque das mãos dele e ao enfim adormecer, teria os sonhos povoados do
seu sempre amor. Mas agora... agora era preciso voltar. A realidade estava fora
daquele parque. Dessa vez a vida lhe dava a chance de uma despedida, ainda que
fosse tudo o que ela não quisesse. Em sua vida não havia felizes para sempre, a
felicidade sempre lhe fora fugaz e mais uma vez, tocara-lhe a alma e partia sem
ter data marcada pra voltar. Era preciso dizer adeus, ainda que seus lábios
teimassem em dizer a Hadrian “Eu te amo!”
