quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Vinho e Fogo...

 

Os humanos às vezes são confusos, caóticos e improdutivos. Nos bons dias é divertido ver, outros desgastante. Mas se tem uma coisa que me faz ficar no meio deles... sorrio erguendo o copo do balcão quando a fêmea levanta a taça... são as mulheres. Tecnicamente não tô vestido para a ocasião, restaurante pequeno e bonito, fêmeas perfumadas aqui, mas é caminho e não está na hora de encontrar o primo, então entrei. Estou gostando, observando o salão de uma banqueta no bar, meu couro contrastando com os bem vestidos no lugar.

Eu havia aguardado a noite de sexta ansiosamente durante toda aquela semana. Finalmente meu noivado com William estava chegando ao fim para dar lugar a um casamento esperado por todos. Eu havia cuidado de cada detalhe para que fosse o momento perfeito e ficasse na lembrança de cada familiar e de cada convidado como um dia de muita alegria. Eu não conhecia o restaurante escolhido para esse belo momento, porém ao chegar notei que era um local muito clássico e aconchegante. William ainda não estava lá, como sempre o trabalho consumia muito de seu tempo e os imprevistos eram constantes. Atuava como cardiologista em um hospital que recebia a grande demanda da cidade. Moravam em uma cidade interiorana, mas que perto das demais da região, era considerada grande, tanto que estava surpresa por não conhecer aquele lugar que me parecia muito acolhedor. Tinha certeza que se tonaria um dos meus preferidos. Subi os três degraus da entrada para o salão e fui recebida por um simpático senhor que indicou uma mesa já reservada. Notei alguns olhares enquanto atravessava o corredor entre mesas e cadeiras que dariam a um cantinho bem reservado no amplo espaço. Eu não sou dessas mulheres que passam horas cuidando da beleza, meus cabelos longos e castanhos são como nasceram, os olhos também e por curtir o campo sem preocupações, o bronzeado está sempre em dia, sou discreta na maquiagem e detesto os batons. Na ocasião, estava com um de meus muitos vestidos básicos e preto. Um delicado decote em “v” que mostrava um pouco do colo e o ajuste perfeito para não grudar no corpo, mas também não deixar de mostrar algumas curvas delicadas. Sentei-me na mesa indicada e um dos atendentes questionou se gostaria de beber algo enquanto aguardava. Solicitei a carta de vinhos e pedi um tinto seco que me era conhecido. Logo a garrafa pousou em minha mesa e pintou de um rubi intenso a taça colocada à minha frente. O tempo passava e nada de William. Observando o pequeno e aconchegante espaço meus olhos param em um homem sentado próximo ao espaço do bar. Diria que é essencialmente misterioso. Também está com as roupas pretas, em couro, diferente da maioria dos homens vestidos com seus ternos sempre iguais. Noto que ele também observa as pessoas que ali estão e parece esperar por algo ou alguém. De repente nos encontramos em um olhar, que demora mais tempo do que deveria. Parece que o vinho já está fazendo efeito em meu corpo e sinto um calor tomar conta de tudo. Decido escapar uns minutinhos para um pequeno jardim que há em uma área aberta do restaurante, preciso respirar. Passo por ele, o mistério em pessoa, fico tentada em fazer algo mais do que apenas olhar, realmente seria melhor parar de beber, mas ainda assim levo a taça cheia para o jardim. A lua está plena no céu, o vento sopra suave e parece pouco para tirar o rubor que tomou conta de meu rosto. Um bip no celular chama minha atenção, é uma mensagem de William se desculpando pelo atraso e avisando que está em uma emergência, sem horário para sair. Ainda bem que a taça estava cheia pois preciso beber pra acalmar a frustração. Ouço passos e parece que mais alguém descobriu aquele cantinho afastado dos ruídos do salão.

Distraída. A fêmea não nota o olhar dos machos ou a inveja de algumas mulheres. Respiro fundo quando passa, fresco, limpo, campo. A pele limpa e uma boca desenhada, marcas de riso, mas no momento tensa. Por um instante ela para e encaro descaradamente esperando, mas ela segue. A barwoman se aproxima e aponta meu copo, sorrio e ela preenche mais uma dose. As coisas aqui são caras, do aperitivo ao vinho por taça. O relógio diz que a noite mal começou. Um garçom passa e deixa uma garrafa descansando na parte de dentro do balcão, eu gosto de sentar perto da área de circulação, noto que é o mesmo vinho que a mulher tomava. Viro minha dose de herradura supreme (valeu fela do qhuinn pelo bom gosto) espero um momento de distração da equipe e saio com a garrafa. É fácil seguir o cheiro limpo da fêmea, meio escondida no jardim, está frio esses dias então os humanos não jantam aqui. Mas ela, exposta na brisa, encara o celular descontente "Más notícias, bela?"

Os passos param bem próximos de mim - "Más notícias, bela?" – uma voz rouca quebra o silêncio e também o meu momento de frustração. Meu corpo sobressalta, o calor aumenta e as palavras custam sair de minha garganta seca, ainda que a taça de vinho já esteja quase no fim. - Parece que a noite não vai ser bem como o programado, mas digamos que eu já esteja acostumada com a mudança de planos... Sinto raiva e bebo o último gole de vinho. Percebo a grosseria e tento ser gentil: - Tem mais vinho na mesa, se importa se eu for buscar? Aceita uma taça? Dou alguns passos para buscar a garrafa mas ele segura meu braço. Sua mão fria entra em choque com minha pele quente pelo vinho e por toda aquela situação. - Não é preciso. Então, tão misteriosamente como ele mesmo é, me mostra a garrafa em suas mãos. Pega um objeto que não sei bem o que é, mas que em nada se parece com um abridor de vinhos, talvez alguma faca ou algo do tipo e tira a rolha facilmente, enchendo novamente a minha taça. Bebo com vontade, apesar de saber que não deveria pois parece que meu corpo e meus pensamentos já nãos estão mais sob controle.

- Então agora tens novos planos para a noite?

- Acredito que não há mais planos, só deixar a noite passar. E você? Esperando por alguém?

- Não aqui, esse foi só um desvio do caminho até chegar a hora “do trabalho” e quem sabe da diversão.

- Diversão... faz tempo que tenho vontade de realmente me divertir. A vida adulta é um tédio!

Ele chega mais perto, talvez perto demais considerando todo o calor que toma conta de mim desde que meus olhos cruzaram com os dele, bebe da garrafa apesar de parecer não gostar, e sussurra num tom descaradamente provocante:

- Quem sabe não podemos ter alguns minutos de diversão aqui...

Acho que a fêmea não percebe sua própria intensidade, por baixo do exterior até doce, ela ferve e sinceramente não é da minha conta o que ou quem a irritou, perda deles. Só que essa veia dela me atrai, imagino a calma ruindo e essa delícia explodindo, quem sabe mostrando alguns dentes... Encho sua taça uma última vez, o cheiro de mulher misturado com vinho. Vinho no fim, bom vinho, mas seria melhor provar a safra da boca dela. Baixo o gargalo da boca e corto a distância, ela ergue os olhos para compensar a diferença de altura "o momento é seu, fêmea, basta querer" deixo a garrafa cair para a grama e busco sua boca com certa calma, deixando decidir se vai ferver comigo.

Ele parece pensar em algo por alguns instantes, então chega ainda mais perto, a garrafa escorrega de suas mãos e descansa na grama fresca do orvalho da noite. Ele sabe o quanto é atraente e sabe que é culpado pelo rubor que toma conta da minha pele. Meus olhos param nos dele mais uma vez, quero beijá-lo!!! Não sei como posso pensar em algo assim, mas é o que mais desejo naquele momento. Percebendo minha vontade, ele cola sua boca na minha com calma, num beijo que não combina muito com seu jeito selvagem, mas sei que deve ser em razão da falsa delicadeza que aparento ter. Mostro que não é assim que quero e colo ainda mais meus lábios nos dele, com pressão, com vontade, com sede do seu gosto e o beijo se arrasta por minutos. Então ele para e puxa-me para ainda mais perto e, antes que eu tivesse tempo de recuperar o fôlego, nossos lábios estão novamente unidos. Uma voz em minha cabeça me ordena a parar, mas é rapidamente abafada pelo cheiro da pele dele e pelo seu toque forte segurando primeiro meus braços e depois descendo até minha cintura e minhas costas. É bom beber o gosto do vinho da boca dele e eu não sinto vontade de parar. Minha mão entra pela jaqueta de couro e agarra a camiseta preta por baixo dela. De repente me lembro de que estamos em um local público e que eu estou nas pontas dos pés, beijando despudoradamente alguém que eu nem sei quem é, nem mesmo o nome! Volto o salto dos sapatos ao chão e o rosto dele desce ao mesmo tempo, sem se afastar, mas logo percebe o meu incômodo e também se afasta um pouco. Olho para dentro do restaurante preocupada mas parece que as pessoas nem mesmo notaram que estamos ali, um pouco pelo vidro escuro que separa os dois ambientes, permitindo a visão apenas pela porta de acesso. Pego a taça da mesa e bebo mais um pouco, ele a toma de minha mão e faz o mesmo. Depois disso vai até o bar, diz algo com uma das atendentes, vejo o quanto a moça se derrete por ele e tenho vontade de pegar a garrafa da grama e acertá-la para que seja mais discreta! Ele volta e fecha a pequena porta com cuidado para não chamar a atenção de ninguém.

- Agora podemos continuar sem interrupções!

- E aonde mesmo que paramos?

Ele se aproxima rapidamente, me afasto um pouco e sou barrada pela mesa que estava logo atrás.

- Encurralada, não é?

Novamente seu beijo me derrete ao mesmo tempo em que agita todo o meu corpo. Seus lábios preenchem toda minha boca e nossas línguas dançam insaciáveis pedindo por mais. Ele acaricia meu pescoço com os lábios e ouço um gemido rouco escapar de sua garganta. Eu queria mais e sabia que ele também. Ele aumenta a pressão entre nós, já estou praticamente sentada sobre a mesa. Minhas mãos agarram sua pele por debaixo da roupa e ele empurra a saia do meu vestido, roçando minha coxa e me trazendo arrepios. Meu coração está tão acelerado que consigo ouvi-lo bater.

Tem garras por baixo do exterior doce, começo o beijo devagar sentindo a vontade e o gosto da fêmea, ela responde tão gostoso, é passional e queima. Provo vinho na sua língua, o corpo macio colado no meu dando vontade de tirá-la do chão e ter um mau caminho completo. Quase rosno quando se afasta. Olha em volta ruborizando como que procurando alguém, estamos a sós, ambiente público, mas sós. Respiro fundo, controlando a fome, mesma fome presente nos olhos dela. Penso rápido e sigo até o bar anunciando uma pequena... reunião... à atendente sorridente do outro lado, volto e fecho a porta. O ar carregado de tensão, expectativa. O beijo volta mais tórrido, suas mãos na minha pele dando um arrepio gostoso. Curvo os dedos na barra do vestido preto e subo, pele quente, as coxas macias, a fêmea recostada na mesa. Desço os lábios por seu pescoço e mordisco conforme reage afastando, não deixo que escape, tomo sua boca encontrando sua língua com a minha. Ergo seu corpo na mesa, as pernas abertas, fico encaixado entre elas e nos encaramos. Me ergo sobre ela, não desviando os olhos enquanto deliberadamente tiro a jaqueta e a camiseta. A fêmea ergue as mãos espalmadas no meu peito e usa as unhas.

Não sou mais capaz de usar a razão, ele facilmente ergue meu corpo sobre a mesa e se encaixa entre minhas pernas enquanto tira a jaqueta e a camiseta me fazendo perder o ar. Eu quero devorar cada pedaço daquele homem, eu preciso que ele tome conta de todo meu corpo com urgência! Minhas unhas escorregam por seu peito definido e param no botão da calça... eu preciso!!! Ele puxa as alças do meu vestido e sua língua desce pelo meu pescoço até rodopiar vagarosamente em cada um dos meus seios, me arrancando suspiros sem fim. Sua boca baila com maestria desvendando cada pedaço de mim e causando choques de puro prazer. Para um momento e põe seus olhos nos meus que sinto queimarem de desejo. Busco sua boca novamente, mordisco seus lábios com cuidado, mas tenho vontade de morder com força e arrancar pedaços dele para mim. Volto meu corpo ao chão e o faço entender que chegou a minha vez e então agora é ele quem se vê encurralado. Continuo o trabalho que comecei com os botões, desço seu zíper enquanto salivo de vontade de sentir seu gosto. Não há nada além da calça então tudo fica mais fácil. Minha boca começa pelo início do caminho que leva até onde quero chegar. Desço entre lambidas e logo todo seu gosto toma conta de mim. O corpo dele também vibra de prazer, em especial aquela parte que agora tomava conta da minha boca. Ofereço o melhor de mim e o devoro com vontade. Estou muito bem apoiada no chão, mas me sinto à beira de um abismo e noto que ele está prestes a se jogar junto comigo. Vejo sua luta para não perder o controle, mas os lábios presos nos dentes, o tremor de seu corpo e os sons roucos sufocados em sua garganta me mostram que ele está perdendo e não demora muito para chegar ao limite enquanto o tenho todo em minha boca e posso tomar para mim cada gota do seu prazer. Sem perder tempo, ele me pega com facilidade e me devolve para a mesa, me beija e bebe dos meus lábios que ainda carregam o gosto dele. Seus dedos arrancam minha calcinha por debaixo do vestido como se fossem do tecido mais frágil.

- Agora é minha vez de experimentar de você – sussurra em meu ouvido e me traz calafrios dos pés à cabeça.

Então ele abre minhas pernas e começa sua brincadeira encontrando meu desejo embebido pela vontade de tê-lo em mim. Sua língua sabe muito bem o que fazer e meu corpo fala por si ao estremecer com as mãos apoiadas na mesa para não sucumbir ao terremoto que toma conta de mim. Ele se levanta, ainda mais imponente, ainda mais belo e eu o quero todo ali dentro e ele perece ouvir o que meu desejo fala.

- Agora, bela, eu vou me enfiar todo em você até satisfazê-la completamente.

Dizendo isso, guia seu pulsante desejo para dentro de mim, escorregando com facilidade, aos poucos, numa tortura sem fim. Quando penso que vamos começar, ele se retira e faz tudo novamente, indo e voltando, deixando claro que comanda todo aquele momento. Enfim, com força, se coloca todo em mim e minhas mãos se cravam em suas costas enquanto tento respirar. Com o ritmo perfeito, seu ir e vir é enlouquecedor e é tudo o que eu precisava. Uma de suas mãos passeia por minhas pernas e a outra segura meus cabelos enquanto sua boca continua a saborear meu pescoço. Como é bom senti-lo me preenchendo tão perfeitamente. Ele pega minhas pernas e as coloca sobre seus ombros, deixando o caminho ainda mais livre para que possa se cravar todo em mim. O vento sopra, as árvores se balançam na rua e apesar da brisa fria gotas se suor banham meu corpo. O seu roçar alcança o ponto certo, começo a sentir leves explosões e sei que um vulcão deve logo lançar suas chamas. Ele aumenta a velocidade, minhas mãos o seguram com ainda mais força, minha respiração para por um breve momento e então, juntos, explodimos de prazer, esvaziando nossos corpos de todo o desejo, de todo o prazer. Ficamos ainda ali, unidos, ele ainda dentro de mim, os tremores dando lugar a uma paz límpida. Um beijo quente une nossos lábios e nossas línguas, em um gosto misturado de nós dois. Miro seus olhos, ele lança um sorriso malicioso e triunfante. Levanto as alças do meu vestido enquanto ele abotoa a calça. Olha para o relógio e parece de lembrar de algo.

Tórrido e sensual, a fêmea é deliciosa. Meu corpo ainda pulsa pelo seu toque e vê-la arrumar a roupa faz elevar a vontade de arrancar de novo, penso, ainda sinto seu sabor na língua. Como se cronometrado, meu celular vibra, meio esquecido na jaqueta no chão. Droga. Como esperado é meu primo, não atendo mas sei que tenho que ir. A fêmea me observa com atenção tranquila, nenhum de nós espera mais do que esse encontro foi, mas é uma pena não ter mais tempo. Me aproximo e sem dizer nada a beijo uma última vez, ela é como fogo, a encaro "gostosa demais p ficar esperando por aí fêmea, lembra disso" pisco e desço para o jardim. Não tem saída para a rua aqui, mas só preciso ir ao canto da casa e desmaterializo em direção ao centro e ao primo. Sorrio, seja quem for que deixou a fêmea plantada hoje, perdeu, azar de uns é minha sorte.

Ele acaba de se vestir e eu tento fazer o meu vestido voltar ao seu devido lugar, sem a pobre calcinha rasgada ao chão. Me olha e me faz querer tudo novamente, mas sei que precisamos ir. Ele me beija ainda uma última vez... como seus lábios tão suculentos e viciantes! Diz algumas palavras e se afasta. A lua brilha no couro da sua jaqueta, negra como aquela noite. Se vai sem um nome e é exatamente assim que deve ser, sabemos que foi um momento de pura luxúria e prazer, mas foi apenas um momento, um encontro, uma noite incrível, mas só uma noite! Sigo para o salão do restaurante com um sorriso bobo nos lábios e algumas dúvidas sobre o futuro. Que belo acaso!!!

 

Texto escrito em parceria com o personagem Balthazar do grupo Lhenihan – BDB – baseado na série de livros “Irmandade da Adaga Negra”.